Educação e coronavírus: três tendências influenciadas pela pandemia

Educação e coronavírus: três tendências influenciadas pela pandemia

Crise mundial causada pela covid-19 pode despertar um novo olhar ao setor, para alcançar alunos de forma digital e acabar com o gap de quem ainda não tem acesso a internet de qualidade

Maure Pessanha

08 de abril de 2020 | 17h50

A pandemia do novo coronavírus está mudando a forma como milhões de pessoas são educadas no mundo. O isolamento social – principal instrumento para o combate à expansão da covid-19 – forneceu uma brecha digital para que novas abordagens pedagógicas, com o uso de tecnologias, fossem implementadas.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), pelo menos 85 países fecharam escolas em todo o território para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, medida que teve impacto em mais de 776,7 milhões de crianças e jovens pelo mundo.

Análise do Fórum Econômico Mundial aponta que o transtorno causado tem uma outra face menos traumática: a da inovação educacional. Esse mapeamento de tendências revela quais serão as três principais mudanças que veremos nos próximos anos no setor da educação.

A primeira diz respeito a inovações surpreendentes em um setor que sempre resistiu a mudanças e que, durante séculos, tem investido em um modelo de aulas expositivas. Na China, aponta o relatório, 120 milhões de crianças e jovens passaram a ter acesso ao conteúdo escolar via transmissões de TV, ao vivo. 

Na Nigéria, soluções como Google Classroom entraram em ação; no Líbano, o aprendizado online foi utilizado até mesmo em aulas de educação física com instruções enviadas por vídeo pelos professores. Como lição de casa, os alunos tiveram que filmar a própria performance, editar e enviar aos educadores – o que impulsionou uma nova aprendizagem digital.

Com a tecnologia 5G, estudantes de países como Estados Unidos, Japão e China devem levar a educação digital a um novo patamar – de transmissões ao vivo, passando por influenciadores educacionais e experiências de realidade virtual. Um novo estilo de vida se desenha e passa a integrar à rotina diária das famílias. 

O desafio da educação digital ainda é como chegar a quem não possui acesso à internet. Foto: Marco Torelli

A segunda tendência aborda o crescimento de parcerias público-privadas, ou seja, coalizões entre governos, editores, profissionais da educação, fornecedores de tecnologia e operadores de redes de telecomunicação. A união se forma para desenvolver e usar plataformas digitais como solução educacional, sobretudo em momentos de crise como a que enfrentamos. Em países emergentes como o Brasil – que tem por característica a forte presença governamental no setor – essa modalidade pode transformar a educação.

Na China, o Ministério da Educação reuniu um grupo de atores para desenvolver uma plataforma de aprendizado e transmissão online em nuvem. O grupo foi desafiado a criar, conjuntamente, uma infraestrutura educacional, liderada por dois ministérios: da Educação e da Indústria e Tecnologia da Informação. Essa segunda tendência mostra que a crise atual pode ser um despertar para um novo olhar à educação – com mais avanços em termos de inovação e tecnologia – e abrir caminho para que coalizões intersetoriais de larga escala sejam formadas em torno de um objetivo educacional comum.

Por fim, a terceira tendência é que o gap digital aumenta. Em outras palavras, as alternativas online podem chegar apenas aos que têm alta qualidade de acesso digital. Vale lembrar que somente 60% da população global está online – enquanto os alunos de Hong Kong têm acesso a aulas virtuais em dispositivos digitais avançados, os estudantes de economias menos desenvolvidas dependem do envio de lições e tarefas por WhatsApp ou e-mail.

A desigualdade socioeconômica, nesse contexto, pode ser exacerbada, tornando o acesso educacional mais distante. Em outras palavras, se o acesso à educação for ditado pelo acesso às tecnologias que não chegam à maioria, poderemos nos deparar com um abismo socioeconômico ainda mais alarmante.

A conclusão do relatório me fez refletir para um tema que tem permeado nossos debates na Artemisia sobre o futuro da educação e como a ampliação de acesso à tecnologia pode auxiliar no combate à falta de oportunidades para estudantes em situação de vulnerabilidade econômica – sobretudo em tempos de pandemia. De uma das empresas que aceleramos vem um exemplo consistente de como é possível combater esse desnível de oportunidades.

A Geekie anunciou 20 mil vagas gratuitas para que alunos de escolas públicas possam continuar a se preparar para o vestibular e para o Enem via plataforma Geekie Games. Criada em 2013, a solução contou com reconhecimento do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e já ajudou mais de 12 milhões de brasileiros a se prepararem para o ensino superior. 

De acordo com análise da consultoria Metas Sociais – referência em avaliação de iniciativas de educação – entre os 143 mil estudantes que usaram a plataforma de estudos e participaram da pesquisa, houve um aumento na nota de 72 pontos na Teoria de Resposta ao Item (TRI), ou seja, a solução tem real potencial de diminuir o gap de desempenho entre alunos vindos dos ensinos privado e público.

O levantamento mostrou, inclusive, que os grupos que mais se beneficiaram foram os de escolas públicas, estudantes que trabalham e estudam, e com nível socioeconômico mais baixo. Para pleitear uma das bolsas, o aluno pode acessar o link.

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* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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