E quando um amigo pede sua opinião sobre o mirabolante negócio de entrega de saladas em casa?

Daniel Fernandes

23 de julho de 2014 | 06h51

Leo Spigariol estcreve toda quarta no blog
Já notou como, no nosso país, as pessoas se melindram facilmente. O sujeito está aprendendo violão (ou sapateado, ou a fazer bolos) e te pede uma opinião. Você, que não gostou da insipiente falta de técnica do amigo, lhe diz: “Não gostei.” Pronto: o mal-estar surge e uma atmosfera de antipatia envolve a conversa. Dali em diante, você perdeu o amigo, se tornou o cara arrogante e, claro, ele vai fazer de tudo para te devolver a ofensa. Ué? Não foi ele mesmo quem perguntou?
Aqui temos dessas coisas. As pessoas se dividem em mocinhos e bandidos, corintianos e palmeirenses e não se fala mais nisso. A crítica é uma palavra de duas faces, boa ou ruim. E, se você for dizer algo, seja um crítico positivo. Não? T
Também penso que não é bem assim.
Curioso. A crítica é aquela habilidade para desmontar, discernir, separar em pedaços a coisa e analisá-la. E, claro, quando desmontamos, por exemplo, um rádio de pilha, temos de tudo: parte ásperas, partes pequenas, partes pontiagudas, partes molengas, todas as partes. São apenas peças, não?
E, quando aquele teu amigo, que está querendo montar um negócio de salada entregue em casa, à venda pela internet, com logística complexa, te apresenta o mirabolante negócio dele, você pega e diz…o que você diz? Se disser que é o melhor negócio do mundo, que ele ganhará milhões em pouco tempo e que está no caminho certo, logo, logo você terá um amigo pobre, amargurado, iludido e com um monte de credores.
Tudo vale a pena para não ser tachado de cricri. Aliás, um termo infeliz. Ou apenas um termo da nossa cultura. Porque, quem é crítico é cricri, pessimista e sofre de inveja crônica. É um problema crítico (e cricri) da nossa cultura.
Pense, não existe crítica boa ou má. E quem crítica não está manifestando inveja, ciúmes, dor de cotovelo, maldade ou sei lá o quê. A crítica tem de fazer isso: discernir, separar as partes funcionantes e as partes danificadas do rádio. Só isso. A crítica não é direcionada a você e ao seu talento nato, e, se for a respeito do funcionamento de alguma coisa, como um rádio, não é uma crítica ao seu caráter. Bem, se vier do seu inimigo, ouça com a mesma atenção, pois, se veio dele, é porque ele percebeu algo de muito importante no que você está fazendo.
Crítica não tem nada a ver com “gostei” ou “não gostei”. Assim, seja menos cricri e ouça com a razão as críticas. Principalmente nos tempos de crise. Aproveitando: este pode ser o tema da semana que vem.
Curtiu? Então multiplique. Repasse. Trafique. Contrabandeie esse conteúdo. Sem medo de ser feliz. E até a próxima quarta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: