É preciso debater a moradia e como reduzir o déficit habitacional

É preciso debater a moradia e como reduzir o déficit habitacional

No Dia da Habitação, 21 de agosto, evento online gratuito reunirá, a partir das 9h, especialistas para discutir propostas para o setor; coalizão usa empreendedorismo para pautar melhorias

Maure Pessanha

19 de agosto de 2020 | 11h08

Os desafios da habitação no Brasil demandam uma visão sistêmica como contraponto à fragmentada. Precisamos enxergar a moradia como um tema estruturante. Diante do agravamento dos problemas sociais perante a pandemia do novo coronavírus, tivemos a confirmação da estreita relação das casas insalubres com a dificuldade para manter a saúde; de ter acesso a empregos qualificados e oportunidades de vivenciar relações familiares mais saudáveis. Estudar, em uma residência inadequada, foi impraticável para milhares de jovens e crianças. Nesse contexto, o papel estrutural do morar está mais do que confirmado.

O levantamento Aglomerados Subnormais 2019: Classificação Preliminar e Informações de Saúde para o Enfrentamento à Covid-19 – conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como um mapeamento preliminar do Censo Demográfico 2020, adiado para 2021 – identificou no País 13.151 aglomerados subnormais; a estimativa é de 5,1 milhões de domicílios distribuídos em 734 municípios. São casas com condições estruturais precárias, instaladas em favelas, grotas, baixadas, comunidades, mocambos, palafitas e loteamentos, ou seja, a classificação depende da denominação regional.

Hoje, ao analisar o déficit habitacional qualitativo nacional, constatamos que 75% da necessidade de moradia do País até 2027 está concentrada na população que ganha até cinco salários mínimos, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV). São dados que nos dão indícios do público que prioritariamente devemos mirar para resolver o problema habitacional e, ao mesmo tempo, abordam a possibilidade de criarmos valor dentro do setor da habitação.

Há mais de uma década, a Artemisia passou a estudar o setor da habitação e a fazer parte de um movimento que enxerga a moradia como uma faísca para a transformação social. Com essa premissa propositiva de mudar o cenário de escassez de dignidade para a abundância de soluções, criamos uma coalizão em prol da melhoria habitacional para a população em situação de vulnerabilidade econômica por meio do empreendedorismo.

Com uma aliança estratégica com Gerdau, Tigre, Instituto Vedacit e Votorantim Cimentos – com apoio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR), da Caixa, do negócio de impacto social Vivenda e da Habitat para a Humanidade Brasil – estamos construindo uma nova narrativa para esse antigo problema social.

Vista de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão-24/6/2020

Essa coalizão de organizações e players da indústria da construção civil está pautada pelo desenvolvimento de fluxos de trabalho e por iniciativas que apoiam a inovação empreendedora, criando uma base sólida e um ambiente propício ao impacto positivo no futuro. Adotar uma abordagem sistêmica significa mapear e observar criticamente o problema para apoiar negócios liderados por empreendedores e empreendedoras de impacto social que têm endereçado os problemas habitacionais. Problemas, aliás, que aumentam o fosso da desigualdade social do nosso País.

Para dividir as reflexões que a coalizão tem feito nos últimos anos – sobretudo com o apoio de novas visões dos empreendedores –, vamos realizar um evento online, no Dia Nacional da Habitação, 21 de agosto, com um ciclo de palestras que começa às 9h e vai até as 17h (inscrições gratuitas pelo site do evento). A proposta é debater os reais desafios de moradia da população em situação de vulnerabilidade social e econômica e avaliar os possíveis caminhos para endereçá-los, envolvendo especialistas de diferentes frentes do setor.

É urgente enxergarmos esse contingente de seres humanos vivendo em condições inadequadas; situação que atinge milhares de famílias brasileiras em questões não apenas de saúde, mas em outras como autoestima, segurança, qualidade de vida, educação e empregabilidade. Precisamos reunir um maior número de pessoas para debater novas visões e novos propósitos que nos ajudem a mudar a perspectiva da habitação de problema para solução. Convoco vocês a se engajarem na construção dessa visão sistêmica!

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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