E aí velho! Incomodou-se? Então é com você mesmo…

Daniel Fernandes

24 de março de 2017 | 12h53

E aí véio!!! – grita efusivamente o jovem na cafeteria. Fala véio!!! – retribui o amigo ao reconhecê-lo. Até hoje não sei por que os jovens se tratam por véio ou pela sua versão monossilábica: véi. Mas véi, acho que vou dar um perdido nisso…
Todavia, formados na década de 1960, meus amigos de cabelos brancos (ou com pouco ou sem cabelo) se cumprimentam de outra forma. E aí garoto!!! – diz um, ex-presidente de uma empresa de equipamentos telefônicos da década de 1990, ao notar a chegada do terceiro membro da nossa equipe de trabalho. Fala garoto!!! – sorri e retribui o nosso amigo que liderou um dos principais centros de pesquisa do país por mais de 20 anos. Divertem-se quando criam uma lógica para lembrar da senha do WiFi de onde estamos trabalhando: FNM-DKW. Também acho graça pois sabia que eram marcas de caminhões e automóveis, respectivamente. Acho que estou me tornando um garoto… – penso enquanto observo a alegria dos dois em trabalhar. Nossa função é capacitar jovens empreendedores em técnicas de Lean Startup, leva-los para validar suas ideias com o mercado e conectá-los com mentores que têm décadas de experiências liderando negócios como executivos ou empreendedores.
Esta iniciativa liderada no Brasil pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é transformacional para todos os envolvidos pois integra passado, presente e futuro e repensa o que é o novo e o velho e quem é o véi e o garoto.
Não é de hoje que jovens empreendedores ganham muito ao trazer profissionais velhos para suas startups. Quando fundaram o Google, Larry Page e Sergey Brin tinham 25 anos. Dominavam a tecnologia, mas não tinham nenhuma experiência na criação e principalmente desenvolvimento de empresas. Sabendo disso, começaram a buscar alguém que pudesse gerenciar a empresa, mas não queriam ninguém velho. Curiosamente, optaram por trazer Eric Schmidt, na época com 46 anos, mas que acharam que tinha a jovialidade de um garoto pois frequentava o mesmo festival que iam, o Burning Man. A união da capacidade de inovação de Page e Brin integrada à capacidade de gestão Schmidt nos dez anos seguintes é um dos principais capítulos da história mundial dos negócios.
No Brasil, combinação semelhante aconteceu com a Bematech, startup que rapidamente se tornou líder no mercado nacional de automação comercial e bancária. Wolney Betiol, um dos fundadores, conta que, pela pouca idade, ele e seu sócio sentiam-se inseguros em diversas frentes, principalmente no contato com fornecedores que não viam muita segurança naqueles dois guris de Curitiba. Por isto, quase sempre os jovens pediam para que José Carlos Laurindo, um técnico de mais idade que trabalhava no TecPar, local da incubadora em que estavam instalados, que os acompanhasse nas visitas aos fornecedores e clientes. Com isso, Laurindo se tornou mentor da startup, sendo fundamental no rápido crescimento que a Bematech teve nos cinco anos seguintes.
Por isso, há um espaço incrível de aproximação entre jovens empreendedores e profissionais mais velhos. Isso já foi retratado, de forma mais caricatural, no filme Um Senhor Estagiário em que Ben Whitaker, personagem representado por Robert DeNiro, é um senhor de 70 anos, aposentado, ex-vendedor de listas telefônicas, se torna viúvo, e sentindo-se sozinho decide concorrer a uma vaga de estágio em uma startup.
Apesar da ficção, na vida real, muitos empreendedores querem, cada vez mais, ter acesso a estes profissionais mais experientes, seja como investidor, mentor, consultor e até como funcionários das suas empresas. Iniciativas como Anjos do Brasil, Inovativa Brasil e MaturiJobs ajudam neste sentido.
Todos ganham, menos os que se irritam em serem chamados de velhos. Estes são velhos mesmos. Os outros são garotos! Certo véi?
Marcelo Nakagawa é Professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

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