E a Maria Brigadeiro pensou em desistir do seu sonho doce

Daniel Fernandes

31 de julho de 2013 | 07h41

Juliana se despede hoje do blog


Lembro desse dia como se fosse hoje: caía uma chuva diluviana em São Paulo, causando um congestionamento recorde na cidade. Todas as encomendas da tarde estavam presas no trânsito, a quilômetros de distância de serem entregues.
Tínhamos um único telefone na época e fizemos  fila indiana, Carol, Maria e eu, para ligar para os clientes e explicar o motivo do atraso. Conseguimos contornar a situação, exceto por uma única encomenda, que eu mesmo havia tirado.
Tratava-se de uma cliente que estava indo visitar a irmã em Goiânia depois de anos sem vê-la e seu presente – esperado ansiosamente pela outra – seria uma caixa de  25 brigadeiros. Havia no pedido uma recomendação minha em caneta vermelha: “Não atrasar! Cliente sai para o aeroporto às 16h em ponto. Vai levar os brigadeiros para irmã, depois de muitos anos sem vê-la.”
Nossos pedidos são assim, bem descritivos. Passava das 15h30 quando o motorista ligou dando o último boletim do trânsito e a má notícia “não vou conseguir chegar a tempo”.
Liguei para cliente para explicar a situação. Ela entendeu, mas chorou no telefone quando falou da felicidade que seria para irmã receber os brigadeiros, seu doce preferido. Fiquei arrasada. Liguei para Deus e o mundo, cotei remessas aéreas, perguntei se algum amigo iria para Goiânia naquela data e nada. Sentamos eu e Carol (hoje gerente de marketing da Maria Brigadeiro) na soleira da porta da casinha de vila onde era a Maria Brigadeiro e choramos de frustração e cansaço. E mesmo que os homens condenem isso, com todos os manuais harvardianos e columbianos de boas práticas corporativas, sim, mulheres choram no trabalho, especialmente na TPM.
Naquele dia, que já virava noite, pensei seriamente em desistir. Tinha deixado minha profissão de jornalista para fazer doces porque acreditava que ia fazer as pessoas felizes com eles, mas estava fazendo chorar até quem eu não conhecia.
Que contradição cruel seria essa, afinal? Antes que eu pudesse concluir o pensamento, a porta abriu e entrou o Joce, nosso motorista, todo molhado. Ele se aproximou do meu computador e com um sorriso no rosto deixou um protocolo de entrega de pedido com uma nota de um estacionamento do aeroporto. Depois que desligamos, ele ligou para a cliente e disse que ia fazer uma última tentativa de entrega, diretamente no aeroporto. Ele conseguiu. Entregou os brigadeiros minutos antes dela embarcar.
E desde então tem sido sempre assim. Quando eu desanimo ou não tenho mais recursos para resolver um problema, alguém da equipe sempre me puxa pela mão. Com tudo quero dizer o seguinte: são as pessoas que fazem uma empresa, não os processos. E se elas acreditam no sonho, elas nunca vão te deixar esquecer dele.

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