Do empreender e da arte dentro de cada um de nós

Daniel Fernandes

22 de outubro de 2015 | 12h45

Ontem encontrei um amigo na rua, na frente de uma nova loja que estamos preparando na região efervescente da Augusta, em São Paulo. Como ele trabalha com cenografia, a conversa logo vai para o trabalho e o que cada um está fazendo no momento, no qual encontramos vários pontos em comum. Principalmente a paixão pelo que fazemos.
Essa conversa e essa rua inspiram meu texto de hoje. Das conexões da arte e do empreender.

É totalmente livre de deslumbramento que vejo o empreendedor um obcecado pelo seu negócio, assim como um artista o é pela sua obra. Pensamos nisso 24 horas por dia, 7 dias por semana. A obra, no meu caso, é a empresa que estou construindo. Talvez com uma diferença: a obra não fica pronta nunca.
Criar um negócio do nada é como começar uma tela em branco, partindo apenas de uma ideia a ser transformada em realidade. E os instrumentos, ou tintas, são toda a bagagem acumulada de conhecimento, técnica e sentimento. Falando com gente que faz arte, percebo a semelhança: a busca de realizar uma visão.
Algum talento (1%), muito trabalho (99%), e bastante sangue frio também, que só descobrimos se temos ou não ao longo da jornada.
A empresa é uma obra aberta também na forma como os outros veem nosso negócio: cada um enxerga de acordo com sua própria percepção. Estamos em constante interação com nosso público.
Ainda mais trabalhando com gastronomia, que é nosso caso. A gastronomia é arte de consumo imediato. Sem falsa pretensão, entregamos todos os dias pequenas obras de arte.
Porque precisamos impactar de alguma forma a vida de nossos clientes para fazer a diferença, para sermos lembrados, para agradar, para gerar um sentimento memorável.
Muitas vezes, o cliente pode nem saber exatamente de que forma produzimos um efeito na sua vida, em suas relações de consumo, na afeição (predileção) que ele cria por nossos produtos e marca.
Uma empresa que consegue produzir tal efeito pode ser considerada uma obra-prima.
Mas uma obra-prima que precisa ser constantemente reavivada, reencenada, recontada.
Acho que por isso talvez a melhor comparação de uma empresa não seja com uma pintura ou um livro, mas com uma peça de teatro, ou um show de circo, ou um concerto, que a cada apresentação precisa ser completamente refeito.
E, a cada apresentação, gera uma expectativa renovada que precisa ser atendida.
Ao final do dia, é como sair do palco ou baixar a cortina depois de um espetáculo. E no dia seguinte, é começar tudo de novo. Por melhor que tenha sido a apresentação do dia anterior, é preciso refazer o encanto e, de novo, reconquistar o cliente.
Porque o show precisa continuar.
Ivan Primo Bornes, procura fazer arte todos os dias no Pastificio Primo, literalmente com as mãos na massa.

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