Dilemas, desafios e desejos dos empreendedores

Daniel Fernandes

11 de janeiro de 2013 | 08h32

Especialista fala sobre ciclo de vida das empresas

Nossos colegas empreendedores blogueiros desta semana postaram textos que, em um primeiro momento, parecem desconexos, mas é possível observar, pelo menos, uma lógica que os une. E ainda é possível refletir e aprender com suas experiências.
Na segunda-feira, Pedro Chiamulera da ClearSale postou seu desejo de ter um sistema legal tributário mais simples e o papel da cidadania mais ativa entre nós. Em seguida, Renato Steinberg, da rede Fashion.me, apresentou seu desafio de encontrar bons profissionais para a empresa e o papel do ‘especialista generalista’. Na quarta-feira, Juliana Motter, da Maria Brigadeiro, revelou um dilema típico do empreendedor que vislumbra oportunidades continuamente e o papel de questioná-las. E logo após, Adriane Silveira da NanyDog ilustrou a cena típica do empresário brasileiro indo ao banco em busca de capital e o papel do plano de negócio.
Seria possível unir estes dilemas, desafios e desejos de diversas formas, mas gostaria de apresentar um dos resultados da minha tese de doutorado, que apresenta um modelo de desenvolvimento de empresas considerando a trajetória de alguns negócios que atingiram a situação de liderança.
Como é uma tese e não uma lei, é claro, ela pode ter falhas e é passível de críticas e, principalmente, melhorias. Mas ainda assim pode ser útil. A figura abaixo representa este modelo de crescimento e gostaria de chamar a atenção para três aspectos das fases de crescimento: formulação da estratégia, função do empreendedor e tipos de crise.

Na formulação da estratégia, quando Adriane diz que “o fato de não ter um plano de negócio não significa que não tenha planos. Tenho muitos. Vários projetos” isto nada mais é do que o jeito empreendedor para formular uma estratégia.
Sua função neste momento é ser visionária, é viver “tendo ideias de negócios que ainda não existem”, como disse Juliana. Mas neste estágio, o grande desafio é ter acesso a recursos para ganhar escala e crescer. Buscar dinheiro externo neste momento é quase utópico para o empreendedor de primeira viagem e muitos bancos irão exigir, sim, o plano de negócio.
É uma prova documental, que será incluída na análise de crédito, e mostra que o empreendedor sabe o que está fazendo, para onde está indo e, o principal, como o banco conseguirá os juros e o principal do empréstimode volta. As chances de um plano de negócio de uma empresa nascente dar certo se inserem em uma discussão polêmica sem fim, mas o gestor da conta, aquele que irá defender sua linha de crédito perante o comitê de crédito do banco, precisará ter argumentos para demonstrar, pelo menos hipoteticamente, de que o risco de crédito daquela empresa é aceitável.
Mas os empreendedores que buscam capital externo, seja por meio de empréstimos bancários, linhas de fomento (FAPESP, FINEP, CNPq, por exemplo) ou aportes de capital (investidores privados), devem ter em mente que as empresas que conseguem esses recursos são a exceção da exceção e não a regra.
Infelizmente.
E para ser a exceção da exceção, é preciso conhecer as regras do jogo antes de entrar nele e se colocar no papel de quem vai conceder o recurso. Falo isto porque fui analista de crédito, investidor de capital de risco e analista de projetos de fomento e o que mais se vê são empreendedores despreparados para obter aquele recurso.
Depois da função de visionário, o empreendedor se dá conta que virou empresário e tem um negócio para gerir. Não dá para ficar tendo ideias o tempo todo já que os recursos são limitadíssimos, principalmente o ‘tempo e dinheiro’. E neste momento da trajetória do negócio, o empreendedor precisa ser vendedor e gestor ao mesmo tempo.
Neste estágio, inclusive, se sobressaem as empresas que têm um sócio muito bom em vendas e outro excelente em gestão. É muito raro encontrar uma só pessoa que seja boa vendedora e gestora ao mesmo tempo. E quando há, ela vende durante o dia e cuida do resto durante a noite.
Empreendedores neste estágio precisam de auto avaliação. Você será o cara que vende, que leva crescimento para a empresa, ou o cara que faz, que cuida da produção, que faz a empresa funcionar. Se não houver um sócio responsável pela outra parte, é preciso contratar alguém, mesmo mediante promessa de sociedade (opções de ações).
Quando a empresa atinge algum conforto financeiro, como ocorreu com a Fashion.me do Renato Steinberg, o empreendedor passa a se preocupar em ser o treinador da empresa e formar novos talentos para o negócio continuar crescendo. E encontrar profissionais que são ‘especialistas generalistas’, como mencionado pelo Renato, é um grande tesouro. Mais do que especialistas que conseguem ter a visão do todo, profissionais assim são pessoas inteligentes, ativas e que realmente vestem a camisa da empresa. Isto é tão raro quanto um negócio nascente conseguir empréstimo bancário ou aporte de capital de investidor privado. Mas estatisticamente estes dois fatos existem e conheço muitos especialistas generalistas e negócios nascentes que receberam capital.
E com o crescimento da empresa, o empreendedor vai deixando sua função de treinador ou facilitador já que o negócio passa a contar com uma área de gestão de pessoas e formação de lideranças para assumir duas funções muito claras: executivo e/ou acionista. Neste momento entra em cena o planejamento formal que determinará os objetivos, indicadores e metas de todos os executivos da empresa.
Caso o empreendedor consiga lidar com suas metas pessoais, fortalece sua posição como executivo. Se não tiver mais paciência em ficar se explicando ou se provando como gestor, é o momento de deixar a empresa para um gestor “profissional” e atuar como acionista interessado no contínuo desenvolvimento do negócio.
É uma ótima oportunidade para que os empreendedores transformem seus desejos de um mundo melhor, como destacado por Pedro Chiamulera, em grandes cruzadas. Isto vale para Bill Gates e sua atuação contra doenças infecciosas, Jorge Paulo Lehman e sua batalha em melhorar as condições de educação no Brasil e para Luiz Amorim, dono do Açougue Tbone em Brasília, que vende carne como qualquer açougue e ainda incentiva a leitura nas pessoas do bairro.
 

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