Depois do Plano Real, um Plano Ético. E isto começa por nós!

Daniel Fernandes

19 de abril de 2016 | 10h36

URV. Se não reconhece esta sigla, talvez não tenha a dimensão desesperadora (para cada brasileiro) que a inflação atingiu no Brasil no final da década de 1980 e início dos anos 1990.
Na música, o Legião Urbana atingia seu apogeu com seu álbum Que país é este. O brasileiro andava de cabeça baixa, pois não conseguia olhar para frente e ver algo melhor. Tinha dado um branco nas pessoas da mesma forma que o jogador Branco, da seleção brasileira de futebol, tinha ficado no jogo em que o Brasil perdeu para a Argentina na Copa do Mundo em 1990.
Os brasileiros tinham perdido as esperanças porque era quase impossível pensar em empreender um negócio próprio ou mesmo manter-se no emprego porque os preços dos produtos eram alterados diariamente, e até mais de uma vez no mesmo dia. A notícia de empreendedorismo que saia nos jornais era a do “Engenheiro que Virou Suco”. Odil Garcez Filho tinha sido demitido de uma metalúrgica e sem outra opção de emprego, foi vender suco na Av. Paulista.
Por isso, não fazia tanto sentido ser lembrado como gigante pela própria natureza, mas como deitado eternamente em berço esplêndido. Daí, o verdadeiro hino que era cantado a plenos pulmões naquele momento lembrava que nas favelas ou no Senado havia sujeira para todo lado. Que ninguém respeitava a Constituição. Mas que todos acreditavam no futuro da nação. E para aquele tal povo heróico que não fugia à luta, um questionamento: Que país é esse?
Mas depois de diversos planos econômicos desastrados, veio a ideia da Unidade Real de Valor (URV), a base de transição de uma inflação irracional para parâmetros estáveis de previsibilidade, que depois se consolidou como Plano Real. De piada no exterior, o Brasil ficou rico e passou a fazer parte do invejado grupo BRIC, que reunia Brasil, Rússia, Índia e China, os países emergentes que iriam passar as principais economias do mundo.
O empreendedorismo passou a existir no dicionário brasileiro (por incrível que pareça, isto não constava antes de 2000) e os empreendedores, antes considerados capitalistas exploradores, se tornaram as novas referências de desenvolvimento profissional. Na medida em que o país foi obtendo o grau de investimento das agências internacionais de risco, centenas de novos investidores começaram a abrir escritórios no país e a investir em novos negócios. Se alguém decidisse virar suco, era para criar negócios como a Juxx, liderada pelo engenheiro Edson Mazeto em 2006 ou a Sucos do Bem, fundada pelo administrador Marcos Leta em 2007. Vivíamos um momento em que tudo parecia dar certo no Brasil. Até vender somente bolos caseiros era uma boa oportunidade para empreender. Por hora, esquecemos que havia sujeira para todo o lado…
Mas o preço do bolo caseiro, que não pouco tempo atrás era 10 reais, passou para 12, 14, 18 e até 20 reais ou mais. O empreendedor começou a sentir o incômodo crescente da inflação e os ajustes de preços passaram a ser inevitáveis. A promessa do Governo Federal em atingir o centro da meta de inflação nos próximos dois anos passou a ser a mesma ano após ano. E o aumento da preços veio acompanhado de diversos outros indicadores negativos que trouxeram a mesma sensação de desânimo e perdição observada no final da década de 1980.
E agora, novamente, estamos diante de outra dimensão ainda mais desesperadora.  Mas não é “apenas” a inflação crescente. Mas também é a economia assustadoramente parada. É o aumento do desemprego (também) de mão de obra muito especializada (que não havia sido atingida por outras crises anteriores recentes). E principalmente o nível de corrupção generalizado, desde o “jeitinho” passando pelo “levar vantagem” até à prática criminosa prevista em lei.
Depois do Plano Real (bastante ameaçado agora), precisamos de algo como um Plano Ético e de uma espécie de Unidade de Valor Ético, que, da mesma forma, consiga fazer a transição de uma corrupção endêmica para parâmetros que consigam ser minimizados pela clava forte da justiça.
Mais que utopia, isto começa pela reflexão por todos nós sobre a ética, sobre qual é a coisa certa a ser feita.
Considerado um dos melhores professores da Universidade de Harvard, o Prof. Michael Sandel, ministra o curso Justiça (disponível gratuitamente aqui) que nos faz pensar profundamente sobre a lógica das nossas decisões e ações.
Se tiver algum tempo neste final de semana, assista, pelo menos, alguns minutos da primeira aula em que ele trata sobre qual é a coisa certa a ser feita. Há uma grande chance de ficar incomodado por não saber qual é a coisa correta a ser feita.
Por mais que estejamos vivendo um momento com muitas coisas erradas, “o jeito como as coisas estão sendo feitas não determina a forma como elas deveriam ser feitas” – diz o Prof. Sandel.
“Apenas faça a coisa do jeito correto!” – finaliza.

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