Decorar e prova: O que crianças do Século XXI estão fazendo em escolas do Século XIX?

Daniel Fernandes

19 de fevereiro de 2016 | 07h10

“Não deveríamos ensinar nada que o aluno pudesse aprender com o Google”- diz Eric Mazur, professor de Harvard. Vishal Sikka, CEO da Infosys, umas das maiores empresas de tecnologia do mundo foi além, durante sua participação no World Economic Forum: “A sala de aula atual, frequentemente, opera da mesma forma de quando os agricultores compunham a maioria da sociedade, quando memorizar era mais valorizado do que a curiosidade e a experimentação, quando apresentar a resposta certa tinha mais peso do que aprender por meio de fracassos e erros”. E complementa: “Muitos dos nossos sistemas evoluíram além daquilo que tínhamos imaginado, mesmo há dez anos. E ainda insistimos em um sistema educacional construído há 300 anos.” Mazur complementa: “Na sala de aula, existe uma pessoa falando em frente aos alunos, que anotam tudo o que ele diz… e os professores estão satisfeitos em ser o centro das atenções na sala de aula, principalmente porque a maioria deles não se dá conta de quão pouco seus alunos aprendem”.
Para lidar com esta criança e adolescente já nascido no Século XXI, Sikka defende que a escola abandone o conceito de educação, no sentido de apenas adquirir conhecimentos (quase sempre organizados para passar no vestibular), para adotar o que chamou de “learnability”, algo como capacidade de aprender a aprender. Mazur defende uma abordagem ainda mais interessante, o ensino ativo, em que cada aluno se torna proativo na construção do seu conhecimento, a partir de aprendizagem por pares. Isto, de certa forma, vai de encontro a crescente demanda de autonomia, mas também pela nova mentalidade líquida destes jovens. Na mentalidade líquida para que decorar se você pode acessar rapidamente a informação?
Daí, o constante desafio encontrar o que não pode ser aprendido com o Google? No World Economic Forum também foram discutidas quais são as habilidades que serão cada vez mais demandadas no futuro e capacidade de resolução de problemas complexos lidera a lista, seguido de pensamento crítico, criatividade, e de outras como inteligência emocional e flexibilidade cognitiva, em resumo, habilidades e capacidades típicas dos empreendedores.
Estas novas demandas representam novos desafios para as escolas, porque a partir da capacidade de resolver problemas complexos, por exemplo, ficaria mais interessante discutir a crise hídrica em São Paulo em uma aula de soluções para os desafios atuais e não parcializada (e decorada) nas provas de biologia, química e geografia. E o debate sobre Tiradentes e sua incrível semelhança com Jesus Cristo ficaria mais curioso a partir do desenvolvimento do pensamento crítico junto com as aulas de história e o impacto da comunicação nas pessoas.
Formar crianças e jovens mais empreendedores não deve estar associado (como algumas escolas estão fazendo) a criação de novos negócios, mas ao entendimento dos novos desafios do mundo e ao desenvolvimento de soluções inovadoras, pois é assim que se prepara alguém para um amanhã que ainda será construído. Afinal, não dá para decorar o que vai cair na prova do futuro de cada pessoa!
Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper e diretor de Empreendedorismo da FIAP

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