De uma burrada, bastam as dos outros.

Daniel Fernandes

18 de março de 2016 | 10h33

Sabe aquela burrada que só se comete uma vez na vida? Aquele momento em que se toma a pior decisão da sua existência e depois cai em desgraça. Diante da atual crise, muitos empresários, infelizmente, estão pensando nisso.
Por outro lado, muitos que perderam seus empregos, estão pensando em empreender. Para estes, o conselho agora é esperar um pouco. O país está parado, revoltado e tenso esperando um desfecho para iniciar um novo ciclo.
Enquanto este novo ciclo não se inicia, se for possível, continue pesquisando, planejando e principalmente aprendendo com acertos, mas principalmente com os erros de outros empreendedores. Dos erros, há outros tipos de burradas que estão associadas à arrogância, falta de visão e até medo. Muitas se tornaram lendárias. Conheça algumas.
Atualmente, há uma geração de empreendedores arrogantes. Acreditam que só porque têm uma grande inovação nas mãos, não precisam de parcerias, principalmente das grandes empresas. Empreendedores assim se assemelham a Gary Kildall, mas principalmente sua esposa Dorothy.  Já ouviu falar deles? Eles foram os responsáveis pela criação da Microsoft, uma empresa avaliada em US$ 372 bilhões e que mudou a nossa relação com a tecnologia da informação. Mas e Bill Gates, Paul Allen e Steve Ballmer, perguntaria você? Bom, em 1980, um grupo da IBM foi procurar um jovem programador na cidade norte-americana de Seattle chamado Bill Gates. Eles precisavam de um programa de computador chamado sistema operacional. Gates indicou a empresa Digital Research cujo proprietário era Gary Kildall. A empresa de Kildall tinha o tal sistema operacional, mas sua esposa (a Dorothy), na época diretora de negócios da empresa, desdenhou a Big Blue.  Com a recusa, a IBM voltou a entrar em contato com Gates, pedindo sua ajuda para desenvolver o programa para o seu projeto secreto de computador doméstico.
Mas se há empreendedores arrogantes, também há empresas, principalmente as grandes e líderes, que agem da mesma forma e perdem oportunidades incríveis. Os mais experientes se lembrarão do Altavista, Excite e Yahoo! Os principais serviços de busca no final da década de 1990. Em 1998, dois estudantes de doutorado procuraram Paul Flaherty, então empreendedor do Altavista, para tentar vender a pesquisa que estavam fazendo. Tudo o que os dois queriam era algo como US$ 1 milhão para voltarem para a faculdade e finalizarem suas teses. Flaherty não viu nada demais naquela tecnologia, acreditando que a do Altavista era muito melhor. Decepcionados, os estudantes ainda entraram em contato com o Excite e Yahoo! com proposta semelhante. Sem muita opção, Larry Page e Sergey Brin, os estudantes, fundaram o Google.

Mas ninguém deve se lamentar tanto de uma burrada quanto Ronald Wayne. Em 1976, ele se juntou a dois jovens para fundar uma startup. Duas semanas depois, ficou com medo dos rumos que a empresa tomaria e resolveu vender os 10% que tinha no negócio para os sócios por US$ 800,00. A startup se chamava Apple e atualmente, se ainda tivesse mantido sua participação, teria uma fortuna de cerca de US$ 61 bilhões, o que o tornaria o terceiro homem mais rico do mundo. Mas depois que a empresa começou a fazer sucesso, Wayne reclamou que tinha recebido muito pouco pela venda da sua participação e recebeu mais US$ 1.500,00 e ficou nisso.
Se pensa em empreender, avalie se é possível fechar parceria com uma grande empresa. Isto pode acelerar o crescimento do seu negócio. Empresas como Bradesco (InovaBRA), Tecnisa (Fast Dating) ou Telefónica (Wayra) criaram iniciativas para fechar parcerias com startups. Mas não desanime se não conseguir. Sempre existirão Altavistas, Excites e Yahoos no seu caminho. E se mesmo apesar da crise, acreditar no potencial do negócio e realmente tiver paixão em resolver o problema do cliente da melhor forma, crie seu novo ciclo!
Vem para a rua e coloque sua ideia para funcionar!
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo do Insper, Diretor de Empreendedorismo da FIAP e Coordenador Adjunto de Pesquisa para Inovação da FAPESP.

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