Coxinhas e vales-coxinha: Se estiverem atravessando o inferno… não parem

Daniel Fernandes

31 de outubro de 2014 | 06h20

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Inflação em alta. Economia parada. Desemprego. Racionamento. Falta de comida. Doenças se alastrando. Um país semidestruído.
Esta era a Inglaterra no início da década de 1950. E mesmo assim, vários empreendedores estavam animados com as oportunidades.
Havia racionamento de alimentos e o governo, na tentativa de amenizar a fome, incentivava que as empresas, aquelas que sobreviveram ou foram criadas no período pós-guerra, oferecessem comida aos seus trabalhadores. Algumas menores, que não tinham condições de manter uma cozinha, ofereciam anotações em papel que eram trocados por refeições nos restaurantes e lanchonetes da região.
E isto chamou a atenção do jovem John Hack. Aos 28 anos e formado em contabilidade, Hack era um dos poucos britânicos que não recebiam “vales-refeição” já que seus conhecimentos o colocavam em uma elite não só intelectual, mas também econômica na sociedade. Assim, em 1954, quando viu as pessoas pagando suas refeições com vales, como contador, imaginou todas as dificuldades de fechar parcerias com cada restaurante, imprimir cada vale, controlar falsificações, pagar os estabelecimentos. E os trabalhadores ainda tinham poucas opções de uma refeição digna já que cada empresa fazia parceria com poucos locais nas regiões próximas. Hack gostava de um político da época que dizia que “o pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade”. Por isso, no mesmo ano, fundou a Luncheon Vouchers Company para unificar o processo de parcerias com estabelecimentos, emissão de vales, controles de pagamentos e o seu vale, que passou a ser conhecido apenas por LV passou a ser utilizado em todo o Reino Unido, recebendo, inclusive, isenções fiscais do governo para garantir cada família tivesse o direito de ter três refeições saudáveis por dia.
Era o jeito deste político em promover o bem estar da população por meio do empreendedorismo e espantar o socialismo que se alastrava na Rússia. “A desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias”- dizia.
E a startup de Hack se tornou padrão no país em menos dois anos e o seu negócio se espalhou pelo mundo até chegar ao Brasil como tíquete-alimentação. O problema aqui, é que, mesmo com incentivos fiscais semelhantes ao do Reino Unido da década de 1950, a inflação tem corroído o poder de compra a ponto de reduzir o tíquete à “vale-coxinha” para muitos trabalhadores.
Assim, se vive de coxinha ou de vale-coxinha atualmente, o inferno pode ser ainda pior com estagnação da economia, desemprego e racionamento. Por isso, neste momento de intensa dualidade política, ainda é válido o pensamento deste líder tão admirado por John Hack: “A diferença entre um estadista e um demagogo é que este decide pensando nas próximas eleições, enquanto aquele decide pensando nas próximas gerações”.
Portanto, se acreditou que a descrição da Inglaterra de 1950 era a do Brasil agora, também vale refletir outra citação de Winston Churchill, esse tal político que inspirou Hack e tantos outros empreendedores: “Se estiver atravessando o inferno… não pare!

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