Conversa entre empreendedores: 'Cansei desse País, vou para os EUA'

Daniel Fernandes

10 de setembro de 2014 | 07h25

Leo Spigariol escreve toda quarta-feira
Às vezes, sinto-me como aquele personagem do desenho do Pica-pau, o jacaré. Na história, ele dá dois passos para frente e um para trás. No último mês, estamos discutindo muito sobre a desburocratização das microempresas que estão no sistema Supersimples. Talvez, pelo fato de estarmos próximos das eleições, o tema volta à baila.
De todo modo, não tenho a intenção de enveredar pela política, mas sim pela mentalidade que rege o funcionamento de nosso sistema administrativo – que, na essência, é o mesmo princípio que rege a nossa vida pública. Essa essência está em todas as manifestações da nossa cultura e economia.
No País, tivemos muitos avanços no último século no que diz respeito à classe trabalhadora. Descansar o final de semana ou ter um limite de carga horária são mais do que direitos, são premissas de bom senso e humanidade. Historicamente, os sindicatos tiveram papel fundamental nesse processo. Todavia, hoje percebo que algo se perdeu pelo caminho. Aquela essência perversa da nossa cultura definitivamente se apossou dos sindicatos.
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Como toda estrutura burocrática, os sindicatos criaram seus vícios e suas estruturas de ciclo contínuo de um mesmo comando. E se tornaram máquinas estranhas. O tema que me chama a atenção é a voracidade com que os sindicatos procuram aplicar os direitos dos trabalhadores, tal categoria tem participação em lucros?
Bem, vamos até o “patrão” exigir essa parcela. No entanto, o que ocorre quando a empresa do “patrão” não alcançou seu ‘break-even’, ou ponto de equilíbrio. A missão deles é fazer um “acordo” calculado a partir do balanço do lucro. E se não houve lucro? A empresa não alcançou o tal ponto e lá vem a turma querendo sua parcela de direito.
Mas parcela do quê?
Um paradoxo: se não há lucro, não há o que dividir. Mas, nesse caso, o “patrão” tem de distribuir os lucros, mesmo que ele não exista. Isso é o Brasil, infelizmente. Na sexta-feira, encontrei um amigo que possui uma fábrica que emprega diretamente aproximadamente 700 funcionários. Sabe o que ele me disse? “Cansei desse País. Já iniciei o projeto de montar um fábrica nos Estados Unidos. Aqui não tem ninguém sério. As pessoas não pensam de forma coletiva. Todo mundo quer garantir o seu e ponto.”
E você, leitor e empreendedor, caso não saiba, dependendo do Estado e do tamanho de seu projeto, o governo estadunidense se compromete a pagar o salário dos funcionários até sua empresa começar a dar lucro. Ou pelo menos só começará a cobrar os impostos quando alcançar o ponto de equilíbrio. Chega a ser ‘non sense’ essa comparação entre Brasil e Estados Unidos.
Enquanto uma entidade de classe aqui no Brasil quer fazer um “acordo” e não está nem aí para real situação da sua empresa ou momento, nos EUA você tem o suporte público para isso se tornar algo saudável. Nós só conseguiremos criar um cenário favorável ao crescimento, tanto econômico quanto social, quando mudarmos essa mentalidade que constrói clãs em que cada um garante o seu quinhão. Bem da verdade, confesso que também fiquei com vontade de mudar nossa fábrica para outro país.