Conheça o mentor que inspirou Steve Jobs, os fundadores do Google, Twitter, Uber…

Daniel Fernandes

19 de dezembro de 2014 | 07h24

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Se fosse um empreendedor atual, quem gostaria de ser? Alguns diriam: “Ninguém. Seria eu mesmo”. Pode ser arrogância ou demonstração de muita confiança em si mesmo, mas é uma resposta válida. Então, refaço a pergunta: Qual empreendedor mais o(a) inspira atualmente? Alguns ainda responderiam: “Ninguém”. Mas esta resposta não demonstra confiança ou arrogância e sim a falta de capacidade ou interesse de aprender com os outros.
Por outro lado, sua escolha pode dizer muito sobre a sua visão de mundo, suas atitudes e valores.  Quando há uma resposta, muitos escolhem os empreendedores atuais mais famosos. Gostariam de ter sido Mark Zuckerberg, o todo poderoso líder do Facebook, ou Larry Page ou Sergey Brin, os gênios cientistas da computação do Google. Talvez Jeff Bezos, o sagaz e obcecado criador da Amazon.com.
Os mais atualizados poderiam citar Jack Dorsey, o elegante e inteligente co-fundador do Twitter. Quem sabe, o tiozão Uri Levine, que co-fundou o Waze depois dos quarenta anos ou Travis Kalanick, o visionário co-fundador do Uber? Alguns poucos, até para impressionar, citariam o precoce Daniel Ek, co-fundador do Spotify ou Evan Spiegel, co-fundador do Snapchat, que criou o negócio a partir de um trabalho de faculdade.
Mas a minha resposta pessoal tem sido cada vez mais John Doerr. Não porque ele foi um dos principais mentores de Steve Jobs e tem sido conselheiro de todos os empreendedores citados acima, tendo inclusive investido em todas as empresas citadas (sim, todas). Mas porque ele tem se esforçado em colocar cada pedra em seu devido lugar e na ordem correta.
Contado e recontado em diversos países, certa vez um professor entrou em sua sala de aula e colocou uma jarra de vidro em sua mesa. Da sua mochila, tirou um saco com pedras grandes e colocou uma a uma dentro da jarra até não caber nenhuma mais. Perguntou para seus alunos se a jarra estava cheia. Sim foi a resposta unânime. Então, o professor pegou um saco com pedras menores e o virou cuidadosamente sobre a jarra. As pedrinhas foram ocupando os espaços vazios que ainda restavam. Mais uma vez, perguntou se a jarra estava cheia. Sim foi a resposta agora não tão unânime.
Em seguia, o professor tira um saco de areia e o esparrama pelo jarro e refaz a mesma pergunta. Agora a classe já estava dividida. Mas o professor continua sua demonstração e retira uma garrafa de água da mochila e enche a jarra com o líquido. “O que esta demonstração significa?” – pergunta o professor. “Não importa quanto atarefado você esteja, sempre será possível fazer mais.” – responde um dos alunos. “É uma forma de enxergar o mundo…” – responde. “Mas se não colocar as pedras grandes primeiro, não conseguiremos colocá-las depois. E as grandes coisas são aquilo que valorizaremos no final da nossa vida como nossa família, nossos amigos, nossa saúde e nossos sonhos realizados. O resto encontrará seu espaço” – finalizou o professor.
“Há dez anos atrás…”- disse John Doerr no discurso para os formandos da Rice University em 2007 – “eu não estava priorizando a minha família. Eu viajava muito. E qualquer trabalho era uma prioridade maior do que ficar com a família. Quando comecei a perder alguns almoços ou jantares em casa, ficou fácil não estar mais presente. Um dia eu percebi que minha filha Esther estava andando e Mary já estava no jardim de infância. E Ann (sua esposa) foi diagnosticada com câncer (ela se curou depois).
Tudo mudou. Eu mudei. E passei a colocar a família como a minha principal prioridade. Estar em casa às noites passou a ser a minha principal prioridade. E não era só estar presente. Eu declarei que entre seis e dez da noite não responderia nenhuma mensagem. Todas as reuniões de negócio, jantares e viagens deveriam passar no seguinte teste: Isto é mais importante do que estar em casa hoje à noite? Desde que adotei este teste, tenho jantado em casa quase todas as noites. Eu não tenho medo de fracassar. Só não posso fracassar em uma situação: com minha família e minhas filhas.
Quando fracasso como investidor, eu posso perder algum dinheiro e um pouco de orgulho. Mas se fracasso como pai, eu perco o amor e a convivência que jamais poderá ser recuperado!”
Dificilmente alguém conseguirá ser o próximo John Doerr, o investidor. Mas com disciplina e dedicação, podemos estar bem próximos de John Doerr, o pai.

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