Conheça a teoria que ajuda você a ter uma ideia de negócio vencedora

Daniel Fernandes

14 de dezembro de 2012 | 07h53

Marcelo preparou uma verdadeira aula sobre como ter ideias
Esta foi mais uma boa semana para aprender um pouco mais sobre o empreendedorismo brasileiro. No sábado, fui painelista do III Startupi Camp onde me encontrei com vários empreendedores que estão criando a nova safra de negócios digitais como o In Hsieh (da Baby), Cesar Mufarej (da Tree Labs) e Humberto Matsuda (da Performa Investimentos), apenas para citar alguns dos feras que estavam no evento.
Durante a semana, pude conhecer os 20 empreendedores que serão meus alunos da próxima turma do Projeto Visão de Sucesso. Há desde pessoas que ainda estão na graduação a empreendedores muito respeitados em sua área de atuação. Em comum, o interesse em desenvolver bons negócios para beneficiar as pessoas da base da pirâmide. Na quarta-feira, minha ex-aluna (da turma anterior do Visão de Sucesso), a Karla Haidar, empreendedora da Kapa+, ganhou a Liga dos Campeões, a competição de empreendedores promovida pela Endeavor. Outros alunos já tinham ganhado prêmios. Murilo Ferraz da Treebos (vencedor do Desafio Brasil 2012 da FGV/Intel), Letícia Lisboa do MeuSoft (vencedora do ChangeMarkers 2012 da Ashoka Global) ou Thomaz Srougi do Dr. Consulta (finalista da Harvard Alumni New Venture Contest). Para Karla, o prêmio veio em ótima hora, afinal, ela lidera sozinha sua empresa já que sua mãe e sócia está muito doente.
Ontem, moderei o inspirador 3º Encontro de Empreendedores da Câmara Americana de Comércio (Amcham). Ao meu lado, meus amigos empreendedores Alexandre Borges (da Mãe Terra) e Manuella Curti de Souza (do Grupo Europa) e outros de quem já era fã mas só conhecia pela mídia: Antonio Carlos Viegas Filho (da Moldura Minuto), Jae Ho Lee (Grupo Ornatus) e Taciana Kalili (da Brigaderia).
E hoje, sexta-feira, estou aqui para comentar os posts dos meus colegas blogueiros Pedro Chiamulera (da ClearSale), Renato Steinberg (da Fashion.me), Juliana Motter (da Maria Brigadeiro) e Adriane Silveira (da Nanny Dog). É um grande desafio e uma grande responsabilidade. Desafio porque o tema empreendedorismo é amplo, muitas vezes polêmico e complexo. Há diferentes pontos de vista que se chocam. Responsabilidade porque não há uma receita pronta para empreender por mais que alguns “especialistas” tentem convencê-lo(a) de que isto existe.
Mas vamos tentar conectar as informações dos posts com teorias acadêmicas já elaboradas. A maior parte dos posts desta semana tratou do primeiro grande dilema de quem quer empreender: Como ter uma ideia de negócio?
E meus colegas explicaram como tiveram suas ideias e as colocaram em prática. A Endeavor tem feito vários eventos com o nome Day1 só para tratar deste assunto, onde grandes empreendedores contam seus primeiros dias como empresário. Para os que têm interesse em empreender, vale a pena ver um vídeo ou outro do Day1 para se inspirar.
Para quem pensa em abrir um negócio próprio e não tem ou está em dúvida a respeito da ideia, é possível pensar em pelo menos três abordagens para gerar e planejar ideias de negócio: Effectuation, lean startup e plano de negócio tradicional.
Apesar do nome estranho, effectuation explica como 99,8% dos empreendedores tiveram ideias de negócio como ocorreu com o Pedro Chiamulera (da ClearSale) e Juliana Motter (da Maria Brigadeiro). O termo foi criado pela professora Saras Sarasvathy (Universidade de Virgínia, Estados Unidos) em 2001 e descreve um fenômeno que, visto de fora, parece óbvio.
No Effectuation, há alguns passos básicos:
Reflexão sobre quem eu sou, o que se fazer e quem eu conheço
Definição de algumas coisas que eu poderia fazer
Interação com pessoas da minha rede comentando que estavam pensando em fazer isto ou aquilo
Apoio de alguém da rede de contatos
Eventualmente, alguém da sua rede de contatos faz os primeiros pedidos;
Com o aumento dos pedidos, a ideia se torna um negócio e você expande seus recursos.
Ou, eventualmente, você sai do ciclo 6a e passa a ter novos objetivos – como novas lojas ou um sistema de franquia, por exemplo.
A figura a seguir, ilustra a lógica do effectuation.

 
 
Em resumo, a geração da ideia de negócio na lógica do effectuation começa com a reflexão sobre quem eu sou (cientista da computação, no caso do Pedro Chiamulera, jornalista que gosta de cozinhar no caso da Juliana Motter), o que sei/gosto de fazer (sei escrever programas de computador, sei fazer brigadeiros…) e quem eu conheço (conheço gente que está trabalhando com comércio eletrônico, amiga que está fazendo uma festa de lançamento de um livro, etc). O que posso (e gosto) de fazer? (poderia fazer um sistema antifraudes, brigadeiros inovadores…).
Com a ideia na cabeça, é hora de interagir com outras pessoas, conversar com os amigos e conhecidos. Muita gente pode desaprovar, mas pode ter um ou outro que vai gostar, apoiar a proposta e até comprar o produto ou serviço. Vem a primeira venda, talvez até de um jeito informal, a segunda, a terceira… Outras pessoas (desconhecidas) entram em contato, gostam do produto ou serviço e também passam a fazer pedidos.
Apesar de também poderem ser enquadrados no effectuation, Renato Steinberg (da Fashion.me) e Adriane Silveira (da Nanny Dog), se adequam mais na lógica do Lean Startup, proposta muito na moda entre os empreendedores digitais e que é ferozmente defendida pelo Prof. Steve Blank na Universidade de Stanford.
A primeira parte do Lean Startup se concentra naquilo que o Prof. Blank chamou de Desenvolvimento do Cliente. E nesta etapa, o empreendedor não sabe exatamente quem é o cliente. O empreendedor lança algo que passou a ser chamado de Produto Minímo Viável (um protótipo, um site, algo que o futuro cliente possa entender) e fica esperando que alguém goste daquilo e valide como algo desejável.
Esta é a etapa da “busca”do cliente. Algumas pessoas vão gostar do produto mínimo viável e começar a utilizar o serviço ou fazer pedidos. Se isto não ocorrer, o empreendedor deve “pivotar” (outro termo do Lean Startup) e criar um novo produto mínimo viável para tentar “descobrir” outros potenciais consumidores. Quando a empresa passa a ter algumas pessoas que estão realmente utilizando o serviço ou pedindo o produto, é o momento de criar a empresa. A figura a seguir ilustra o Desenvolvimento de Cliente do Lean Startup.

 
 
Em resumo, a lógica do Lean Startup é a experimentação. Você tenta algo e verifica se há demanda. Se houver, cria o negócio. Se não, pensa em outra ideia. No caso do
Renato Steinberg e do seu sócio Flávio Pripas, eles criaram um site para que suas esposas pudessem utilizar. O site foi lançado como um passatempo de final de semana, mas outras pessoas começaram a gostar do Bymk (nome do Fashion.me da época), validando o serviço.
Algum tempo depois, milhares de interessadas tornaram-se usuárias, visitando o site diariamente e ficando muito tempo interagindo com as páginas. Só neste momento eles largaram o emprego em um banco de investimento para criar a empresa. No caso da Adriane Silveira, ela teve uma necessidade pessoal e resolveu lançar um site despretensioso na internet e os interessados começaram a entrar em contato. A aquisição de alguns clientes já deu segurança para que ela criasse a Nanny Dog.
E ainda há o plano de negócio, onde é recomendado que se faça uma ampla pesquisa de mercado, estude os concorrentes atuais, os hábitos das pessoas do público-alvo, entre outras análises, para definir um espaço na concorrência e aí pensar em ideias de negócio.
Mas só o tema plano de negócio merece outros posts apesar de pouco explicar como os empreendedores criaram seus negócios no Brasil.
Lembrou de alguma outra abordagem para que empreendedores tenham ideias de negócio? Tem um relato pessoal sobre como teve a ideia do seu negócio? Conhece algum livro bacana sobre o assunto? Achou que só falei besteira? Poste um comentário e compartilhe seu aprendizado conosco. Voltando a primeira frase deste post, sempre temos muito que aprender sobre o empreendedorismo brasileiro. E a cada dia aprendo um pouco mais : )
Referências:
BLANK, Steve.; DORF, Bob. The startup owner’s manual. The step-by-step guide for building a great company. Pescadero,CA: K&S Ranch, 2012
READ, Stuart.; SARASVATHY, Saras. Knowing what to do and doing what you know: Effectuation as a form of entrepreneurial expertise. Journal of Private Equity. Winter 2005, p. 45-62.
 
 
 

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