Compare-se aos jovens de mentalidade, e não de idade, e será jovem sempre

Compare-se aos jovens de mentalidade, e não de idade, e será jovem sempre

Uma amiga começou balé com quase 60 anos, outro passou a estudar japonês, um terceiro fundou uma startup: novos aprendizados só fortalecem a juventude, já que não há melhor idade para desenvolver o melhor de você

Marcelo Nakagawa

25 de abril de 2019 | 15h07

Depois de mais de cinco horas e meia correndo, cruzo a linha de chegada da Two Oceans Marathon, considerada a mais bonita do mundo, na cidade do Cabo, África do Sul. Ao meu lado estava Moacir Galego, meu colega de corrida e minha companhia nos últimos 20 quilômetros dos 56 que corremos naquele dia. Depois que sua esposa falecera, já aos 60 anos ele decidiu começar a correr e agora, alguns anos depois, chegava inteiro, feliz e sem nenhuma dor ao final daquela ultramaratona que passava pelos oceanos Índico e Atlântico no Cabo da Boa Esperança. Voltei outras vezes para a África do Sul, sempre pensando no Moacir.

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Mas na semana passada pensei na Anitta. “Que Anitta?”, perguntei ao Hélio Graciosa. “A Anitta, a cantora. Conhece?”, pergunta o Hélio. Aos 72 anos, ele é meu amigo e colega de Fapesp, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Juntos orientamos os empreendedores apoiados pela instituição em novas abordagens de criação de startups como lean startup, customer development, business model e valuation proposition canvas.

“Sim, conheço a Anitta…”, respondo. “Pois é…”, diz ele mostrando uma reportagem de jornal. “Você sabia que a Anitta vai para Madri para sair à noite, visitando bares e boates, conversando com as pessoas, só para entender quais são as novas tendências de música? É o que o Steve Blank diz, get out of the building!”, complementa.

Tendo liderado o CPqD, o histórico Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações, por quase 20 anos, Hélio se reinventou no processo de gestão de projetos de inovação tecnológica, abandonando a lógica tradicional de pesquisa e desenvolvimento de ciclo interno fechado, para se tornar um dos principais especialistas e defensores da inovação aberta e do lean startup do Brasil. “Saia do laboratório e vá falar com os potenciais usuários, clientes e até competidores e sabotadores!”, pede o tempo todo para os pesquisadores empreendedores apoiados pela Fapesp.

Lutadores de kendo, arte marcial que o colunista Marcelo Nakagawa começou a aprender recentemente. Foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters-19/1/2017

Entre tantas risadas e aprendizados que tenho com o Hélio, agora só me resta pensar… “Vai malandro”, porque já entrei a um bom tempo na idade dos “enta”. Não só eu, mas minha esposa e boa parte dos meus amigos e conhecidos. E o que mais admiro em vários deles é que também estão se reinventando, se desafiando e tendo várias experiências de começar do zero. É uma idade em que não é preciso mais pensar no que os outros pensam de você. Se aquilo é um desejo que guarda há muito tempo e fará bem para você, por que esperar mais?

Uma amiga, com quase 60 anos, começou a praticar balé. Outro começou a estudar japonês. Ele deve ter, pelo menos, uns cinco ou dez anos pela frente até falar, ler e escrever os ideogramas com alguma fluência. Mas é um dos alunos mais assíduos e aplicados, além de estar feliz em dominar algo com que sempre sonhou. Um fundou uma startup e agora desenvolve soluções de inteligência artificial.

Minha única vantagem, neste caso, é que sou jovem há mais tempo. E estes novos aprendizados só fortalecem a minha juventude

Outro se mandou para o Massachusetts Institute of Technology (MIT) para fazer seu sonhado MBA. Descobriu que a instituição oferecia um curso assim para profissionais bem mais experientes e não teve dúvidas. Pediu demissão do seu cargo de diretor em uma grande corporação, reuniu a família e se mudou a região de Boston, nos Estados Unidos. Outra amiga se descobriu como líder comunitária, organizando eventos, reunindo interessados e promovendo, neste caso, a cultura japonesa para os próprios descendentes, que foram se afastando do país dos seus antepassados.

E se tem alguém muito feliz com o novo desafio e aprendizado é a minha esposa. Ela se desafiou a aprender a tocar violino. Felizmente com uma professora e, talvez infelizmente, para os vizinhos. Mas pelo avanço dela, logo ficarão mais contentes.

E eu resolvi partir para a luta. Literalmente. Comecei a praticar kendo, uma arte marcial razoavelmente moderna e ainda pouco difundida no Brasil, desenvolvida a partir das técnicas de combate com espadas de bambu inspiradas nas dos samurais do Japão feudal. Devo ser o novo aluno mais velho do meu dojô (local de treino), ainda erro muito os movimentos, tomo bronca o tempo todo e treino com crianças e muitos jovens de idade. Minha única vantagem, neste caso, é que sou jovem há mais tempo. E estes novos aprendizados só fortalecem a minha juventude, já que não há melhor idade para desenvolver o melhor de você!

* Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo e inovação do Insper