Como o empreendedorismo pode responder aos desafios da saúde pública

Daniel Fernandes

28 de dezembro de 2018 | 17h42

Maure Pessanha *
No País, o Sistema Único de Saúde (SUS) é a principal porta de entrada para cuidados médicos de quase 70% da população. Entre a baixa renda, esse porcentual sobe para 77%. Embora seja reconhecido como referência internacional, o sistema possui uma série de gargalos. Entre os usuários, é alto o grau de insatisfação com as longas filas, a demora para o atendimento e o agendamento de exames, problemas no acesso a medicamentos, falta de acompanhamento adequado a grupos de risco e portadores de doenças crônicas, falta de apoio à qualificação de profissionais que atuam na área, ineficiência no uso de dados e na integração de sistemas, dificuldades na prevenção e promoção da saúde básica, entre outros entraves.
Nesse contexto, os negócios de impacto social podem complementar e qualificar a oferta governamental. Têm potencial ainda de facilitar o acesso ao serviço público. O desafio de melhoria da qualidade do serviço prestado, sob o olhar dos empreendedores de impacto social, representam oportunidades de criar negócios que tragam inovação e tecnologia para o setor.
Um exemplo desse desafio-oportunidade são as doenças crônicas, que correspondem a 72% das causas de morte no Brasil e são responsáveis por 75% dos gastos com atenção à saúde pública. Essas são enfermidades que podem ser prevenidas ou controladas com diagnóstico precoce, hábitos saudáveis e monitoramento constante. Soluções focadas em endereçar desafios do setor podem apoiar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS) – em especial, o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), que trata de: “assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades”.

Quando pensamos na qualificação da utilização de recursos públicos, por exemplo, a startup Savelivez representa essa oportunidade. Fundada por Rafael Yassushi Oki, em Florianópolis (SC), o negócio auxilia bancos de sangue e hospitais a conseguirem doadores sob demanda por meio de uma plataforma que lança mão de recursos estatísticos e de inteligência artificial para fazer previsões dessas demandas por tipos sanguíneos e de hemocomponentes. A solução conta ainda com um mecanismo que avisa os doadores cadastrados quando o banco de sangue precisa do tipo sanguíneo do doador.
Em Itajubá (MG), o empreendedor e médico Francisco Sales de Almeida criou um negócio que desenvolve equipamentos eletromédicos. A Sensymed atua para resolver o problema de hipotermia, um desafio no pós-operatório que pode levar o paciente a um quadro severo neurológico, metabólico, hematológico e cardiovascular.
A startup desenvolveu o SensyWarming (SW01), um equipamento microcontrolado que proporciona um fluxo contínuo de ar aquecido, transferindo uma quantidade de calor variável com a temperatura ambiente e com a necessidade de cada paciente, até uma manta SensyBlanket que cobre o usuário, reduzindo os riscos de hipotermia. A solução reduz a permanência do paciente nos leitos, aumenta a rotatividade e, consequentemente, o número de pessoas atendidas. Reduz custos dos hospitais com um equipamento nacional e a um custo acessível.

“Essa nova geração de empreendedores tem encontrado o apoio para impulsionar seus negócios em organizações e institutos do setor. Essa forma de pensar pode mudar a realidade da saúde pública no Brasil”

Um terceiro exemplo desse tipo de empreendedorismo é a Pulsares. Criada pelo médico Rogério Malveira, o negócio oferece um software online que pode ser manuseado por médicos ou farmacêuticos. A solução gera um novo modelo de receita médica que facilita a compreensão do paciente por juntar pictogramas com design de informação. O programa gera uma receita organizada em horários se baseando na rotina do paciente, mostrando quando, como e o que tomar.
Estamos falando de gerar, para os pacientes, acesso à informação em uma linguagem de fácil compreensão que resulta em maior engajamento no uso de medicamentos. Consequentemente, há tratamentos mais eficazes e sem recorrência que impacta nos custos do SUS.
Esses são apenas três casos de empreendedores que respondem de forma inovadora aos desafios de saúde com que se depararam. Essa nova geração de empreendedores tem encontrado o apoio para impulsionar seus negócios em organizações e institutos do setor. Um deles, o Instituto Sabin, tem atuado com a crença de que modelos de negócios são a chave para transformar positivamente a saúde do País. Essa forma de pensar pode mudar a realidade da saúde pública no Brasil.
* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil

Mais conteúdo sobre:

ONUsaúdesaúde públicastartupSUS