Como escapar do vazio profissional de ficar oito horas em uma empresa que diz uma coisa e age de outra forma

Daniel Fernandes

13 de março de 2015 | 07h30

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Há uma grande e profunda crise moral não só no Brasil, mas no mundo.  Dizem uma coisa, mas fazem outra. Mostram algo que sabem que, propositalmente, é uma farsa, ou pelo menos, uma bem calculada meia verdade, e criam o contexto para torná-lo uma verdade aparente.
Mas quem está dentro e conhece a dissimulação é cúmplice, desacreditado ou um ignorante. O cúmplice é intencionalmente maldoso, pois não só conhece como apoia o modus operandi. O ignorante não tem consciência dos seus atos e tampouco de suas consequências, por isto os desconhece. Mas é o desacreditado que sofre, intimamente, as dores dos ferimentos das suas crenças e perspectivas. É uma dor interna, que cresceu lenta e silenciosamente, mas que não pode ser expressa publicamente, porque se chocaria com a tal verdade imposta. E é o aumento deste perfil que tem contribuído para o crescimento da crise moral que vive cada um de nós quando entendemos que a realidade percebida não é a mesma daquela comunicada.
A reação mais comum dos desacreditados é o comportamento passivo-agressivo que se manifesta pela vitimização, a ironia ou a letargia de se recusar ou retardar o que deve ser feito. E tudo isto cria um profundo e cada vez mais incômodo vazio nas pessoas.  É o vazio das amizades de Facebook ou WhatsApp, das relações amorosas, do consumismo e das relações de trabalho. Dão-se conta que o que conta mesmo é a autenticidade e não a quantidade, desempenho e o discurso.
E de todos os vazios, o que consome mais horas é o vazio profissional de permanecer, pelo menos, oito horas em uma empresa que diz uma coisa, mas age de outra forma. Mas como desenvolver um negócio verdadeiramente fiel ao que prega e ser percebido desta forma? Como tornar a prática a prática, sem passar pelo discurso?
De todas as soluções, uma das mais simples foi criada por Tony Hsieh, empreendedor da Zappos.com, uma das líderes em comércio eletrônico de calçados nos Estados Unidos. Hoje a empresa pertence a Amazon, mas sua ideia ainda continua a orientar muitas empresas bem intencionadas ao redor do mundo.
Certa vez, Tony teve dificuldade em explicar a cultura organizacional da Zappos para um colaborador recém-contratado. Como estava acompanhado de outros funcionários da empresa, pediu para que cada um fosse sincero e apresentasse o seu entendimento do que era a cultura organizacional da organização. Gostou da experiência, pois percebeu que não só o novo funcionário tinha tido uma aula sobre a empresa como ele próprio aprendeu muito sobre o negócio que liderava, principalmente sobre como poderia melhorar.
Na mesma semana, criou um processo para que todos os colaboradores da empresa também se manifestassem, deixando claro que deveriam ser totalmente sinceros e que as contribuições poderiam ser anônimas. Em um sinal de comprometimento, destacou que todas as opiniões, mesmo as negativas, seriam impressas em uma publicação que chamou de Livro de Cultura (baixe a versão mais atual) da Zappos e que isto seria distribuído para os funcionários, parceiros, fornecedores e até clientes. Mas seu principal uso seria o de tornar a empresa mais transparente e sempre mais comprometida a melhorar rumo ao que tinha se proposto.
A história da Zappos até parece ficção e talvez até seja em parte. Mas ficção mesmo é continuar apostando em algo que não temos mais fé. Qual é a cultura da sua empresa?

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