Clube da Preta conecta afroempreendedores por meio da moda

Clube da Preta conecta afroempreendedores por meio da moda

Negócio de impacto social funciona como clube de assinatura com produtos de empreendedores negros, estimulando consumo consciente e fortalecendo pequenos negócios

Maure Pessanha

12 de fevereiro de 2020 | 09h34

Com uma força que representa R$ 1,7 trilhão em consumo, segundo dados do Instituto Locomotiva, a população negra já compõe a maioria dos empreendedores no Brasil. Entretanto, o País não enxerga essa potência transformadora. É nítido que precisamos “mudar a chave” para estimular empreendedoras e empreendedores negros para que possam criar negócios de impacto social por oportunidade; não apenas por necessidade.

Essa é, aliás, uma das recomendações de Adriana Barbosa, fundadora da Preta Hub: uma aceleradora do empreendedorismo negro associado à criatividade, inventividade e tendências. Idealizadora do estudo Empreendedorismo Negro no Brasil – realizado em parceria com a Plano CDE (empresa de pesquisa e avaliação de impacto, especializada nas famílias das classes C, D e E) e pelo Banco JP Morgan – a empreendedora é uma profunda conhecedora do afroempreendedorismo brasileiro.

Como fundadora da Feira Preta, há 18 anos, já reuniu 120 mil pessoas, 600 artistas nacionais e internacionais, 700 expositores e movimentou mais de R$ 5 milhões com a venda de produtos e serviços.

Nesse cenário, mirando uma oportunidade de negócio e uma demanda por iniciativas que fortaleçam a cultura afro e atendam ao consumidor negro, destaco um negócio de moda. O Clube da Preta, fundado em 2017, é uma plataforma que conecta afroempreendedores a clientes por meio de um clube de assinaturas. Mensalmente, os consumidores recebem uma caixa com itens exclusivos do universo cultural afro (vestuário, artes e acessórios), totalmente customizados para o perfil do cliente.

O negócio de impacto social – empreendido por Bruno Brígida e Débora Luz – atua fortalecendo as duas pontas: gera visibilidade e renda para os empreendedores negros e fortalece a identidade dos consumidores. Os assinantes descrevem o perfil na plataforma e, a partir dessas informações, é feito um match com os fornecedores.

O negócio surgiu, segundo os empreendedores, do desejo de mudar o mundo contando histórias reais. Com a escassez do mercado de trabalho e o crescimento do empreendedorismo no Brasil, Bruno e Débora observaram o crescimento da oferta de produtos de moda e beleza alinhados à cultura afro-brasileira. Diante de movimento cultural – que anda lado a lado de iniciativas de impacto social e consumo consciente – tiveram a ideia de criar o Clube da Preta.

Hoje, são mais de 120 fornecedores na plataforma; mais de mil clientes atendidos desde o início da operação do Clube da Preta e 500 assinaturas mensais. Investindo nas mais diversas classificações de estilo de moda, os empreendedores conseguem enxergar a diversidade e o impacto que cada um dos fornecedores provoca. Ao longo da trajetória, o negócio já gerou mais de R$ 100 mil de renda para os afroempreendedores.

Bruno Brígida e Débora Luz, os fundadores do Clube da Preta. Foto: Marco Torelli

Entre os impactos citados por Bruno, destaque para o fato de o Clube da Preta gerar conexão entre clientes – dos mais diversos estilos – com pequenos empreendedores. O consumidor recebe produtos altamente criativos e que representam tendências, confeccionados por empreendedores que estão nas bordas das cidades. Um impacto cultural que aproxima os clientes das regiões centrais desses produtores locais.

No Brasil, temos 54% da população que se declara negra ou parda, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É um público que se interessa por produtos e serviços focados na temática do empoderamento racial. Logo, mais do que um negócio, acredito que o Clube da Preta se tornou um dos vetores da transformação social.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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