Cheio mas vazio. Menos mas mais. Os outros, mas você. Os ensinamentos de um mestre para outro

Daniel Fernandes

27 de março de 2015 | 07h15

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Kkkkk, sqn. Há uma crescente angústia entre as pessoas. Estão cheias de amigos no Facebook, mas cada vez mais vazias por dentro. Mas como alguém está solitário quando as pessoas estão a um WhatsApp, quando o melhor vídeo está a um YouTube ou o melhor restaurante está a um FourSquare? E deveriam estar ainda mais felizes, pois todos os seus milhares de amigos estão bem postando fotos dos seus pés à beira da praia!
A mesma tecnologia que aproxima também o(a) distancia daquilo que você é pois passamos a ser os outros porque, mesmo que inconscientemente, buscamos os seus “likes” . E quando conseguimos ser o que não somos, só enchemos mais o nosso vazio. Daí a aflição de muitos em buscar um significado e um sentido para suas vidas.
Mas assim como o ser só existe em função do não ser, a vida se contextualiza pela morte. Se pudesse estar presente na missa de sétimo dia da sua morte, o que diria a cada um dos que foram lá homenagear a sua vida: Desculpa? Obrigado? Ou viva a sua vida (e não a dos outros) já que a morte será só sua?
Os que buscam um propósito e um sentido para viver ficariam pasmos se tivessem ido à missa de certo empreendedor. Ele planejou tudo. A lista de convidados, as músicas e os músicos que cantariam e no final da cerimônia, cada um recebeu uma pequena caixa de madeira. Dentro, o livro Autobiografia de um iogue, escrito pelo indiano Paramahansa Yogananda em 1946.
O livro fala da busca tranquila daquilo que você é agora. “Não são os seus pensamentos passageiros, suas ideias brilhantes ou seus hábitos diários que controlam sua vida. Viva de forma simples. Não seja pego pela máquina do mundo. Isto é muito exigente. Quando conseguir o que é exigido, sua mente já estará em busca de outra coisa, seu coração já estará machucado e seu corpo estará doendo. Aprenda a arte de viver a sua verdade. Seja feliz agora.” E “mantenha-se calmo, sereno e sempre no comando de si mesmo. Descobrirá como é fácil lidar com isto”.
E para viver bem o agora, é preciso ser menos para estar mais leve e concentrado, sem as ancoras do passado ou as velas ao vento do futuro. “Esqueça o passado. Isto já saiu do seu domínio. Também não se concentre no futuro, isto ainda está além do seu alcance. Mas controle o presente. Viva intensamente bem agora. Cada futuro é determinado por cada presente”.  “Viva o seu presente de forma séria e sábia”. Só assim será verdadeiramente mais você agora.
Por fim, você não deveria viver pelos outros. Sempre haverá alguém mais do que você em alguma coisa e “o poder dos desejos não realizados é a causa de toda escravidão de um homem”. Mas “há um imã em seu coração que atrairá amigos verdadeiros. O imã é o desprendimento, o pensar nos outros antes. Quando se aprende a viver para os outros, eles viverão por você”.
E ao viver verdadeiramente a sua vida, descobrirá que as “oportunidades na vida vêm pela criação e não por acaso. Você mesmo, agora ou no passado, criou todas as oportunidades que passaram pelo seu caminho”.
Steve Jobs leu o livro Autobiografia de um iogue aos 19 anos, pouco antes de visitar a Índia. Após seu retorno, leu o livro todos os anos até a sua morte aos 56 anos. Era o único livro que tinha em seu iPad. E mesmo após o seu falecimento, todos sabiam que Jobs estava lá, na sua missa, distribuindo para cada convidado a pequena caixa de madeira com seu livro favorito dentro. Ele tinha criado aquela oportunidade!

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