Cannoli para tubarões – o empreendedor que sobreviveu ao Shark Tank

Daniel Fernandes

23 de abril de 2018 | 14h51


O sonho de ser empreendedor é uma força da natureza, difícil de ser contida, que nos faz dar mil voltas até encontrar o seu curso. Hoje apresento uma entrevista muito divertida e enriquecedora com o empreendedor Alexandre Caliman, jornalista, publicitário, vespista e – acima de tudo – orgulhoso dono, junto com a esposa Mônica, da empresa Cannoli do Calimano.
No filme “O Poderoso Chefão”, o mafioso diz “Leave the gun, take the cannoli” (“Deixe a arma, pegue os ‘cannoli'”). Os cannoli são um dos doces mais conhecidos da Itália, originários da Sicília, onde eram presença obrigatória nas festividades das comunidades rurais e no carnaval. Hoje fazem parte do dia a dia das ruas e das confeitarias de toda a Itália. As receitas de cannoli chegaram ao Brasil junto com os imigrantes.
Assista o vídeo do Alexandre preparando a sua receita “secreta” na cozinha de casa.
Entre as várias aventuras que o negócio do cannoli vem proporcionando, Alexandre e Mônica foram selecionados em 2017 a participar na segunda temporada do reality show Shark Tank Brasil, onde apresentaram o projeto de investimento de transformar a fábrica “caseira” num negócio de grande porte. Mesmo não conseguindo convencer os “tubarões”, os doces foram um sucesso, e Alexandre levou para casa um grande aprendizado.
1. Qual o teu histórico profissional e como isso culminou na vontade de empreender?
Cara, meu histórico profissional é meio maluco e se confunde com a minha história de vida, porque eu sempre trabalhei, desde os 13 anos. Não porque precisava ajudar a família ou porque meus pais me obrigaram a isso. Mas porque eu queria!
Comecei como balconista em uma locadora de vídeo, e isso me deu uma muita noção de atendimento ao público. Sempre fui fã dos filmes clássicos e dos filmes de ação da época… fiquei uns 3 anos nessa locadora, vi muito filme, fiz muita sinopse e atendi muita gente do bairro, que virou minha amiga.
Bom, depois disso acabei indo trabalhar com meu pai na gráfica e aí aprendi com ele, e com a equipe toda, o valor da excelência nos processos. Ver a produção, acompanhar meu pai na gestão e também ajudar no dia a dia sendo uma espécie de “faz tudo” da gráfica me fez entender como é importante um empreendedor saber e já ter feito tudo o que é feito na sua própria empresa. Meu pai começou como contínuo numa gráfica, foi impressor, trabalhou em todas as áreas, foi vendedor e depois de, sei lá, 20 anos, resolveu abrir a própria empresa – que durou algumas décadas até ele adoecer e morrer bem novo, com 48 anos. Ele, Luiz Caliman, era uma força da natureza trabalhando, um líder nato. E era apaixonado por artes gráficas. Muitas vezes o vi saindo do papel de “dono da empresa” pra virar impressor, acabamentista ou tipógrafo, junto da equipe. Foram uns 4 ou 5 anos que passei ao lado dele que me inspiram até hoje.
Daí, com uns 20 anos fui trabalhar em shopping, fui estoquista, caixa e vendedor. Passei por uma loja de roupas e outra de sapatos. Nas duas, aprendi que um cliente, na maioria das vezes, entra pra comprar um item, mas se o trabalho for feito de forma apaixonada e correta, a gente convence ele a levar mais uns 3 ou 4 e ainda lhe agradecer no final.
Em 1999  me formei em Jornalismo (aos 25 anos) e aí fui trabalhar numa grande empresa. Já comecei sendo editor de quadrinhos, na Abril Jovem e agradeço ao universo por isso: terminei uma faculdade de jornalismo, mas fui trabalhar mais uma vez com coisas que amava, as HQ’s de super-heróis. Lá foram 3 anos de um aprendizado completamente diferente do anterior. Vi que numa empresa grande, só sobrevive quem está disposto a “se anular por um bem maior”… não tem espaço pra grandes ideias, não existem grandes possibilidades para arriscar. É tudo controlado pela instituição e a gente consegue, às vezes, colocar uma ideia própria em prática… é tudo muito mais político, mais engessado, mais hierarquizado. Mas foram anos incríveis também. Daí saí pro mundo da internet – lembra da bolha? Participei do portal Zip.net como editor, passei pelo UOL e, quando a bolha da internet estourou, acabei me tornando um redator publicitário.
Há uns 5 anos, talvez pela famigerada crise da meia idade, percebi que só a publicidade não me completaria pessoalmente e comecei a pensar em fazer algo relacionado a outra paixão que tenho na vida: a Itália e tudo o que está relacionado a este país. Sempre gostei de cozinhar e, modéstia a parte, sempre cozinhei bem. Foi então que, por hobby comecei a fazer os cannoli. Mas logo, virou empreendimento. E aí tudo começou a se mover diferente, pra um caminho bacana que, eu acredito, vai me levar ainda bem longe!
2. Você teve algum perrengue que serviu de aprendizado?
Tive. E foi com os próprios cannoli. Em 2014, depois do auge da onda dos food trucks, a gente (eu e a minha sócia e esposa, a Mônica) resolvemos abrir uma pequena loja em um strip mall do bairro (na Casa Verde) onde os eventos de food truck eram feitos com sucesso. Depois de 4 meses, fechamos. Não por falta de público, nem por conta de má gestão, mas por uma incompatibilidade de objetivos entre nós e os donos do pequeno shopping. Na verdade, eles só queriam a gente lá (e todos os outros que alugaram suas lojas) para não ficarem sem renda até a venda da propriedade. Claro que a gente não sabia dessa intenção deles e quando descobrimos, resolvemos cortar relações. Nesse episódio, aprendi que muitos fatores, além da qualidade do seu produto, bom atendimento e esforço pessoal, podem influenciar no seu negócio. Como por exemplo: o caráter dos donos do imóvel que a gente aluga pra montar um empreendimento.
E o maior aprendizado nesse caso foi o seguinte: não acredite “somente na palavra” de ninguém, faça contratos e especifique tudo nesses contratos. É o tal negócio… todo mundo é amigo, até as coisas começarem a ficar estranhas. Não estou dizendo que a gente deva desconfiar, nem que devemos ser pessoas rudes no trato e nas negociações. Acreditei, acredito e sempre vou acreditar nas pessoas, na gentileza e nos relacionamentos harmoniosos. Digo isso por uma questão de precaução mesmo e, vou usar outra frase feita pra exemplificar tudo isso: “o combinado nunca é caro”.
Aprendi que pesquisar antes sobre as pessoas, conversar com quem já fez negócios com elas, observar por um tempo antes de fechar negócio pode fazer a diferença na vida de um empreendedor e evitar algumas dores de cabeça.
3. A vontade de empreender veio antes ou depois do cannoli?
Creio que os cannoli surgiram de uma vontade absurda e contida que eu já tinha de empreender. Os doces (que pra mim são como joias) foram só a manifestação dessa vontade.
4. Como o empreendimento afetou a rotina da família?
Putz… senta que lá vem história… hehehe. Mudou tudo! Completamente tudo na nossa rotina. Eu continuo trabalhando como redator e a Mônica tem agora a dupla função de cuidar dos filhos e também dos cannoli (ela é quem coordena a produção, faz as compras, o financeiro e um montão de outras coisas). Esse apoio e a dedicação da Mônica com os cannoli são fundamentais pra boa saúde do negócio e da família. Sem ela, nada existiria, nem os cannoli, nem a família. Acho até que pra ser mais justo, a gente deveria chamar Cannoli da Monica, não do Calimano (risos). Acredito que vem dela toda a organização e a capacidade de conciliar a família com os negócios. Se dependesse só de mim, o foco estaria todo o tempo no trabalho. Mas quando eu estou “viajando” muito, deixando a família meio de lado, ela vem, me dá um puxão de orelha e me coloca no eixo de novo. Na prática, tentamos sempre estar o mais organizado possível para cumprir uma agenda. Procuramos sempre fazer tudo em família, quando é possível. No último evento que participamos, por exemplo, no Shopping Pátio Higienópolis, levamos os filhos com a gente. Enquanto trabalhávamos, eles comiam. E o Vito, 9, até que ajudou um pouquinho. A Giulia só curtiu o evento mesmo (risos).
5. Qual o teu ponto forte como empreendedor?
Ah… a vontade de fazer o melhor sempre, de não desistir. Também acredito muito na minha capacidade de comunicação com os clientes e no conhecimento que tenho do meu produto.

6. Conta um pouco de como foi a aventura do Shark Tank, como coisas legais  que aconteceram.
Foi uma experiência incrível. Primeiro porque eu achava que nunca seria chamado para participar, fiz um vídeo e me inscrevi muito despretensiosamente. Depois, porque o processo todo, do dia em que te ligam até o dia da gravação, é muito intenso. A gente fica imaginando como vai ser a vida se os tubarões toparem o negócio ao mesmo tempo que se prepara pra não fazer feio em frente às câmeras, ensaia o pitch umas 300 vezes por dia, conversa sobre a proposta umas 350 vezes, refaz os planos umas mil vezes… e aí quando vamos ver, já foi… E é muito bacana isso, como tudo o que tira a gente da zona de conforto. Foi muito legal conhecer os bastidores, ter contato com o pessoal da produção, todos muito ágeis e profissionais e gente fina (até hoje vendo cannoli pra alguns deles). É bem bacana ver como um programa de TV é feito e ficar cara a cara com os empreendedores considerados como alguns dos melhores traz pra gente uma confiança, um sentimento de que nada é impossível.
7. Qual o maior desafio enfrentado (e superado) até hoje com o Cannoli?
Creio que é o desafio que vamos ter que encarar sempre: a perda de um cliente. Esse ano, deixamos de atender a um restaurante que era nosso cliente desde o início do negócio. Foram quase 4 anos juntos e, como eles reformaram a cozinha e criaram uma estação dedicada a doces, passaram a fabricar seus próprios cannoli. Isso gerou um impacto negativo no início do ano, mas a gente superou encontrando um cliente ainda melhor, que compra mais do que esse restaurante e tem uma relação de parceria incrível com a gente!
8. Qual foi a maior besteira que você já fez? Alguma coisa que você teria feito diferente?
A gente tende a ter memória seletiva e esquecer as mancadas, mas algumas delas não esquecemos porque justamente nos ajudam e nos ensinam. Uma dessas foi quando eu, na ânsia de atender a tudo e a todos, aceitei fazer 4 eventos simultâneos em um final de semana. Foi uma loucura, correria. Saímos atrás de gente pra trabalhar, produzimos o dobro, nos enchemos de expectativas e 2 dos 4 eventos não tiveram nem a metade do público estimado. Deu tudo certo, graças ao nosso esforço, mas no final, não tivemos o retorno financeiro que imaginávamos. Chegamos à conclusão de que às vezes é melhor selecionar com calma quais eventos devemos participar, fazer contas imaginando o pior cenário e, só então assumir ou não uma responsabilidade. Resumindo, às vezes a gente ganha mais dando uma descansada e uma pensada nos próximos passos ao invés de sair como um trator querendo conquistar tudo!

Saiba mais do Cannoli do Calimano
Site:  cannolidocalimano.wordpress.com
Instagram:  instagram.com/cannolidocalimano
Facebook:  facebook.com/cannolicalimano

Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)