Câncer, trauma e velhice: Empreendedores que o Brasil deveria conhecer

Daniel Fernandes

16 de janeiro de 2015 | 06h31

Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Vou dizer uma verdade: Você vai morrer! Vou fazer uma projeção: Vai morrer velho! Levando-se em consideração que a vida média do brasileiro é de 73 anos agora e está aumentando, quem sabe você não passa dos 80? Vou fazer uma estimativa: Você se aposentará bem antes de morrer! E volto a dizer outra verdade: Neste momento, estará no pico do seu acúmulo de conhecimento e experiência profissional.
Mas levando-se em conta o tempo de vida médio atual, se estiver lá pelos 36 ou 37 anos ou já passou disso, está, infelizmente, na sua segunda metade da vida. Já não está na hora de pensar no seu legado? Para a ONG norte-americana Encore.org a resposta é não. Não deve pensar naquilo que deixará de você quando se for. Deve viver o seu legado agora! A Encore auxilia pessoas que entram na sua segunda metade da vida a viverem verdadeiramente o seu propósito de vida, a usarem seus conhecimentos e experiência profissional para terem impactos realmente benéficos e profundos e ainda, terem um complemento de renda.
Uma das pessoas que são apoiadas pela a Encore é a Ann Ogden Gaffney. Na década de 1990, ela cuidou de um amigo com AIDS nos seus últimos seis meses, cozinhando e ficando ao seu lado. Ela diz que esta experiência a ensinou a não ter medo da morte e ficou grata por esta lição quando aos 40 anos foi diagnostica com câncer no rim. Uma cirurgia resolveu seu problema. Mas cinco anos depois, novo diagnóstico de câncer, agora na mama. O tratamento, bem mais pesado, deixou-a em casa. Mas percebeu que seu gosto pela culinária permitia que ela lidasse melhor com os efeitos colaterais do tratamento, inclusive com as limitações do paladar. Começou a orientar outros pacientes nas incursões pelo mundo da gastronomia e fundou a Cook for Life em 2007, um ano depois de ter se curado completamente. Mesmo sendo um negócio sem fins lucrativos, Ann recebe doações constantes de pessoas agradecidas pelo “tratamento” que receberam.
Era início de outubro de 2001, quando Pamela Cantor, na época com 56 anos, foi convidada pela Secretaria de Educação da cidade de Nova Iorque a analisar o impacto do ataque de 11 de setembro nas escolas públicas da cidade. Psiquiatra com especialização em stress infantil, o diagnóstico final a surpreendeu: Quase 70% das crianças que viviam nas regiões mais pobres estavam traumatizadas, mas eram traumas derivados da pobreza e isto criava a maior das barreiras para o aprendizado. Pamela largou sua carreira para fundar a Turn Around, uma organização que treina professores, funcionários e dirigentes das escolas a criarem ambientes que reduzam o stress infantil, incentive conexões seguras e positivas e criem experiências inspiradoras. Sua solução é tão barata e ao mesmo tão eficaz, que a empresa recebeu aportes de investidores mesmo sendo um negócio sem fins lucrativos. Em 2014, Pamela foi reconhecida como um dos maiores casos de sucesso pela Encore.
Mas a Ann e a Pamela são apenas dois exemplos entre outras mais de 9 milhões de pessoas que estão “na sua segunda metade de vida” e estão tendo impacto positivo e significativo nos Estados Unidos. Em 1997, o antropólogo Marc Freedman, começou a estudar o envelhecimento da população norte-americana e chegou a conclusão de que cerca de 40 milhões de aposentados gostariam ajudar de alguma forma, mantendo a flexibilidade e liberdade de tempo da aposentadoria. Desta constatação, fundou a Civic Ventures, depois rebatizada como Encore, que conecta o que chama de “pessoas na segunda metade de vida” a atividades que possam utilizar seus conhecimentos e experiência profissional, ao mesmo tempo em que encontram novos e/ou verdadeiros propósitos de vida e ainda e ainda recebem uma remuneração complementar.
Empreendedores como estes dão um novo significado ao verbo envelhecer. Para os demais, fica o ensinamento de Roberto Bolaños, que deu vida ao personagem Chaves apenas aos 40 anos e depois viveu até aos 85 anos: “Eu prefiro morrer do que perder a vida!

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