Caminhamos para uma grande depressão coletiva: reclamar é padrão!

Daniel Fernandes

21 de janeiro de 2015 | 06h11

Leo Spigariol escreve toda quarta-feira no Blog do Empreendedor
Às vezes fico me perguntando: o que estou fazendo de errado? O que está errado para tanta reclamação? Difícil ver elogios. Difícil achar gente satisfeita com seu próprio corpo. Difícil achar gente que busca forma de mudar e fazer as coisas de uma forma melhor.
Há pelo menos dois anos, adotamos o Facebook como ferramenta de trabalho em meu escritório em São Paulo. Por fim descobrimos que tudo acabava sendo concentrado nessa ferramenta: audiência da equipe, rede de relacionamento e, claro, uma equipe de desenvolvedores dedicada e trabalhando para cada vez mais para que essa plataforma funcione em diversos equipamentos sem custo algum.
Mas confesso que está cada vez mais difícil ficar conectado a isso. Por fim, a timeline corre e transborda como um revolto rio de futilidades, mimimimis, indignação digital passiva e a necessidade da provação social. Hoje, sem dúvida alguma, caminhamos para uma grande depressão coletiva, onde reclamar é um padrão.
E pior: um padrão que não gera ação. E isso, num movimento de consciência coletiva, vai contaminando cada um de nós, que nos mantemos conectados a um rio mal cheiroso. Exercer o papel de cidadão – palavrinha aparentemente  fora de moda – é muito mais do que dar um “compartilhar” em uma notícia de forma indignada. É muito mais que panfletar digitalmente.
Ontem, caminhando pelo residencial onde moro, me deparei com dois garotos, com seus vinte e poucos anos, conversando sobre a grande “vantagem” de terem burlado a segurança e entrado em uma festa usando o mesmo convite para cinco amigos. Malandros? Não. Burros.
Burros porque eles multiplicam o modelo que tanto nos impede de realizar coisas e que, quase sempre, tanto nos causa revolta manifesta em nossa timeline, como seres humanos, como cidadãos e como empreendedores. E tudo isso está tão enraizado em nossa cultura que não vejo luz, infelizmente. É um modelo que encontramos em todas as esferas da vida por estes lados do mundo. Quando era garoto, levar uma maçã para o professor era talvez a representação mais clara e subversiva da propina ou da tentativa de levar uma vantagem.
Você já tinha parado pra pensar nisso? Não existe auge da crise e sim um processo lento da degradação. Pode ser coisa da minha geração sentir angústia diante do estado de coisas que nos cerca. O mal do século. Empreender é uma maneira de acreditar em mudanças. Por isso, creio que as próximas gerações se sairão melhor. Vale acreditar. Vale?
Procuro pensar dessa forma. Todavia, basta dar uma olhada para o que vem se aproximando, a onda humana que caminha para o futuro. Meio milhão de estudantes tirou nota 0 (zero) em redação no ENEM no último exame. Meio milhão de jovens que, bem, sequer conseguem expressar ideias claras ou expressar ideia nebulosa alguma. Então a angústia volta à me rondar de um jeito avassalador.
Volto à insatisfação do início do texto. As mídias sociais são um jeito novo de se manter as aparências, assim como fixarmos a atenção em nossos umbigos. Mas, por mais que teimemos, as aparências enganam. E, quando menos esperamos, as evidências vêm à tona revelar que há algo de muito podre no reino do Dinamarca… ops! Brasil.
 

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