Black Friday no franchising pode ser uma armadilha

Black Friday no franchising pode ser uma armadilha

Grandes descontos em franquia pode significar tirar dinheiro de planejamento e investimento em ponto de venda, suporte técnico e treinamento; quem vai pagar essa conta?

Ana Vecchi

21 de novembro de 2019 | 11h05

A Black Friday é um presente para muitos de nós, consumidores, que podemos comprar aquela viagem, o aparelho de celular, o carro, os móveis ou aquele lençol de centenas de fios egípcios dos nossos sonhos! Centenas de pessoas se preparam para comprar na Black Friday ao longo de outubro e novembro para, inclusive, garantir os presentes de Natal a preços melhores e parcelados até a próxima edição.

Muitos empresários que atuam nos variados canais de vendas – varejo físico e online – já preferem que a data da Black Friday (que é a última sexta-feira de novembro e neste ano cai no dia 29) saísse de novembro porque “mata” as vendas do Natal ou, no mínimo, prejudica muito as vendas do Natal, ficando apenas para os menos planejados compras de última hora ou de produtos mais acessíveis.

O que me incomoda é esta promoção no franchising, no que tange a investir em franquias com 50% a 70% de desconto para os franqueados entrantes pela Black Friday. O que quero dizer é que, se uma franquia exige, por exemplo, R$ 100 mil de investimento com uma taxa de franquia de R$ 30 mil, isso significa que cada centavo foi projetado em cima das necessidades dessa franquia para que retorne o investimento em 18 meses.

E, para o franqueador, a taxa de R$ 30 mil também serve para pagar todo o suporte que ele deverá prestar para que o franqueado inicie sua operação com excelência, treinado, PDV (ponto de venda) em local analisado e aprovado e/ou com o sistema e plataforma suportando a nova operação online. Isso e muito mais significa custo de vários recursos e, de repente, pode-se abrir mão daquele valor que paga esta conta em 50% a 70%? Quem vai pagar esta conta e como?

Agora, vou tornar meu raciocínio mais otimista. Para não cair em roubada, como já vimos dezenas de vezes, o investidor pensando em comprar franquia pode se deparar com franqueadores que planejaram a expansão e definiram por territórios menores que comportam apenas modelos de negócios de menor porte e, portanto, o investimento dos franqueados tende a ser menor.

Regra número 1 é tomar cuidado com promessas tão fáceis em tempos tão difíceis. Foto: JF Diorio/Estadão

Mas, ainda assim, o investimento seria em PDV, estoque, sistema e não na taxa de franquia que remunera o trabalho do franqueador na implantação da mesma e que não deve ser menor do que as franquias de porte maior: precisa aprovar ponto, treinar franqueado e equipe, entregar manuais, documentação jurídica e advogados, viagens.

Se a engrenagem da empresa franqueadora estiver funcionando perfeitamente, as receitas pagando todas as contas e com excelente margem de contribuição, concordo que uma estratégia de expansão pode ser usar esta promoção para candidatos com perfil operacional fantástico, mas com valor abaixo do necessário para investir na compra da franquia na cidade pequena do interior do Estado que está no ranking dos melhores municípios a instalar a franquia nos próximos meses.

Deu para entender como é mágico este momento? É o cara certo, para a cidade certa, dentro do Estado planejado, com o valor que com este descontão vai arrebentar em 2020! Tenho trabalhado por aqui para trazer orientações para empreendedores, tanto franqueadores quanto os que pretendem investir em franquias ou negócios independentes e a mensagem de hoje é, de novo, que todo cuidado é pouco.

Não posso generalizar, de forma alguma! Mas precisar de taxa de franquia a qualquer custo não é uma boa estratégia de expansão. O “arrebentar em 2020” pode significar quebrar, ruir, desmoronar. Aos que podem abrir mão dessa receita plena, parabéns!! Fizeram a lição de casa do bom franchising e estão realizando a máxima de escalar de forma estruturada e profissional. Franchising é escala, rateio de custos e relacionamento com a rede.

Aos que querem empreender, usem todas as dicas que postamos por aqui e tomem muito cuidado com as promessas tão fáceis em tempos tão difíceis! É como cuidar das compras no cartão de crédito, parcelar, esquecer do limite de gastos/mês e não do limite do cartão, que tende a ser maior do que a gente deveria gastar. Uma hora a conta chega junto com a água no nariz e temos que buscar outros recursos que vão custar muito caro.

Segurem a ansiedade do sonho do negócio próprio e aproveitem as melhores ofertas reais desta Black Friday!

* Ana Vecchi é consultora de empresas, CEO na Ana Vecchi Business Consulting, professora universitária e de MBAs, pós-graduada em marketing e com MBA em varejo e franquias. Atua no franchising há 28 anos em inteligência na criação e na expansão de negócios em rede.

Tendências: