Ben Kaufman fundou sua primeira empresa com 14 anos (uma história sobre criatividade)

Daniel Fernandes

07 de fevereiro de 2014 | 05h59



Marcelo Nakagawa é professor de empreendedorismo do Insper
Quão criativo você era aos 14 anos? Nesta idade, Ben Kaufman tinha fundado sua primeira empresa, a BK Media, em Long Island (Nova York). Em 2001, ele descobriu que não tinha toda a experiência de alguém com mais idade, mas conhecia bem as pessoas da sua faixa etária e criou uma empresa de web design e produção de vídeo com o que havia aprendido na internet.
Como o investimento era baixo, seus pais não se importaram quando empresas como a Maybelline (fabricante de cosméticos), L’Oreal (fabricante de cosméticos) e  Footlocker (rede de lojas de calçados esportivos) começaram a procurar o jovem Ben pedindo trabalhos de comunicação digital voltado para os jovens, desde que ele continuasse estudando para a faculdade.
Na faculdade, já em 2005, Ben não se entusiasmava com algumas aulas, preferindo ouvir seu iPod na sala. Mas diante de tantas broncas, começou a pensar em um fone de ouvido que não chamasse tanta a atenção, que fosse mais compacto e que ainda pudesse ficar encoberto.
Fez o rascunho do projeto e convenceu seus pais a pagarem uma viagem para a China. Lá, ele encontrou fornecedores dispostos a fabricar o produto. Entusiasmado com a aceitação do seu fone de ouvido para iPod, começou a pensar em vários outros acessórios para os produtos da Apple. Entendia qual era o problema dos usuários, criava uma solução e mandava fabricar na China.
Aos 18, já tinha um segundo negócio, a Mophie, que começou a ganhar prêmios de design no MacWorld já no seu segundo ano de vida. O sucesso do negócio fez com que Ben captasse US$ 1,5 milhão para ampliar o leque de produtos. No MacWorld de 2007, Ben se dispôs a criar um novo produto, da ideia a concepção final, em 72 horas.
E ficou impressionado quando centenas de outros jovens se dispuseram a ajudá-lo, discutindo o conceito, propondo melhorias, testando os protótipos e, o mais importante, querendo comprar o produto final que haviam ajudado a desenvolver. E foi a partir deste momento que ele descobriu que não precisa contar apenas com a sua criatividade, mas com a de centenas de pessoas que queriam a mesma solução e se propunham a ajudar.
Decidiu vender a Mophie no auge do seu sucesso para criar sua terceira empresa aos 20 anos, a Kluster, uma plataforma online que reuniria pessoas para juntas criarem novos produtos – depois o negócio foi rebatizado como Quirky.
Na Quirky, qualquer pessoa pode propor uma solução, um resultado que se pretende chegar. Todas as semanas, a empresa recebe centenas de sugestões. São pessoas que querem uma melhor solução para limpar o chão, organizar os fios dos equipamentos eletrônicos ou simplesmente descobrir como separar a gema da clara em um ovo.
As melhores ideias são escolhidas por pessoas da rede e desenvolvidas até serem comercializadas pelo site da empresa ou por redes de varejistas e lojas independentes.  No caso de maior sucesso da empresa, a história da criação é muito interessante: Jake Zien ainda era um adolescente estudando no colégio quando começou a se incomodar com seu filtro de linha que não acomodava todos os carregadores de bateria de diferentes tamanhos e formas. Propôs a ideia e 708 outras pessoas o ajudaram a co-desenvolver o produto. Ele foi lançado em 2011 e, em 2013, Zien se tornou milionário com a sua participação nas vendas do seu filtro de linha flexível.
O que Ben Kaufman, agora aos 27 anos, fez com a Quirky foi permitir o surgimento de centenas de outros ‘Bens’, pessoas altamente criativas que não sabem como transformar sua criatividade em produtos comercializáveis. Como era o caso de Jake.
O Quirky pode ser uma das soluções para ajudar as pessoas criativas, mas e a parcela majoritária da população que acredita não ter esta habilidade?
Uma das respostas para este desafio tem sido dada pela professora Tina Seelig. Neurocientista de formação, Tina é a diretora do Stanford Technology Ventures Program e professora de criatividade da d.School, que também fica em Stanford. Ela se alinha a vários outros pesquisadores que entendem que todos nós aumentamos a nossa capacidade criativa durante a infância e que ela é posteriormente reduzida conforme nos tornamos mais “adultos”.
E para recuperar a capacidade criativa dos seus alunos “adultos”, ela os incentiva a pensar em uma questão matemática banal: Quanto é o resultado de cinco mais cinco? Dez, você responderia. Alguns “adultos” até pensariam se não há uma pegadinha em uma pergunta tão óbvia.
Durante nossa formação rumo à fase adulta, o ensino fundamental, médio e superior nos induz a pensar em ter a resposta exata para a questão dada. É assim que tiramos as maiores notas nas provas, passamos no vestibular e nos formamos na faculdade. Mas os maiores problemas da vida não tem uma questão bem definida, e por isso, em muitos casos, não há uma resposta certa. E quando encontramos uma resposta “certa” acreditamos que ela funcionará em todos os casos. E é este conhecimento normal típico dos “adultos” que vai reduzindo o espaço da criatividade.
Para refletir sobre esse aspecto, Tina sugere outra questão matemática também banal: Quais números somados teriam como resultado o número dez? Inúmeras, diria você. Já sabendo que não haveria nenhuma hipótese de alguma pegadinha.
Se entender qual é o verdadeiro resultado que quer chegar e aceitar que sempre haverá diversas soluções para poder atingir este resultado, entenderá como funciona a fórmula da criatividade.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: