Encontre sua beleza natural antes de sonhar grande

Daniel Fernandes

30 de outubro de 2015 | 06h20

Consegue imaginar como vai ser aquele documentário que passa no réveillon com a retrospectiva do ano de 2015? Vamos ver, estarrecidos, sobre como dobrar uma meta sem defini-la antes, como estocar vento, sobre a saudação à mandioca, sobre a criação da mulher sapiens e da ciência desde a Arca de Noé. E se isto é motivo para algumas risadas sobre este ano, o mesmo não poderá ser observado sobre o nível de corrupção, a inflação de dois dígitos, a perda do grau de investimento, o nível de desemprego, o rombo bilionário das contas públicas, a redução das políticas sociais, o fechamento de empresas, o aumento do custo de vida, e o mais triste, a falta de perspectiva da população por dias melhores.
Diferente de outras crises, agora o epicentro do terremoto está nas profundezas do solo político, social e econômico brasileiro.
Sai a tradicional música de final de ano… “hoje é um novo dia… de um novo tempo que começou… Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer…” e entra “não me convidaram… pra essa festa pobre… que os homens armaram pra me convencer… a pagar sem ver… toda essa droga… que já vem malhada antes de eu nascer…”.
Mas em meio a este tsunami de lama de 2015, uma flor de rara beleza natural nos lembrará de que é possível ter esperança, mas que só isto não basta: “Quem sabe, faz a hora. Não espera acontecer…
Uma boa nova deste ano é o novo livro da jornalista Liana Melo fala de alguém cujo apelido definiria o nosso momento atual: Zica.

Zica é o sinônimo de um acontecimento muito ruim. Mas a realidade da Zica, a personagem principal do livro, seria ainda muito pior na visão de muitos movimentos ditos sociais. Zica nasceu pobre, muito pobre, filha de mãe lavadeira de roupas e pai sem profissão definida em um Brasil que não tinha Bolsa-Família. Ela era a filha do meio. Tinha seis irmãos mais velhos e outros seis mais novos e, desde os nove anos, era ela que cuidava da sua casa e da sua vida em um bairro carente da cidade do Rio de Janeiro. E ainda enfrentava o preconceito de ser negra em um momento que não se falava de cotas. E o que pode fazer alguém negro, pobre e com pouco estudo no Brasil? Pode fazer o mesmo que qualquer outra pessoa que, apesar de todas as zicas de sua vida, acredita em um novo dia de um novo tempo que começou. Nesses novos dias, é possível ser alegre. É só querer… Mas só querer não basta! É preciso botar pra fazer!
E é justamente sobre o querer e o fazer que trata o livro “Beleza Natural: A história da rede de cabelereiros que levantou a autoestima dos brasileiros” (Editora Sextante, 2015). Mesmo já bastante divulgada, a trajetória de Heloísa Helena de Assis, a Zica, agora é narrada de forma detalhada e inspiradora. Liana Melo entrevistou dezenas de pessoas, entre parentes, amigos, empreendedores, executivos, consultores, professores, advogados e até alguns dos maiores investidores do Brasil, que presenciaram a saga da uma jovem babá e empregada doméstica que se indignou com sua condição e não descansou enquanto não achou uma solução pessoal. E quando descobriu uma fórmula de encontrar sua beleza natural, não sossegou enquanto não definiu um jeito de também ajudar outras milhares (e depois milhões) de pessoas que estavam em sua mesma situação inicial. Ela e seus sócios Leila Velez, Jair Conde e Rogério Assis, criaram o Beleza Natural, uma rede de salões de beleza com mais de 40 unidades Brasil e que faturou R$ 250 milhões em 2014.

E aquela menina que brincava e falou que ontem era semente de hoje, é a mesma mulher que agora tem o mesmo porte dos empreendedores do “Sonho Grande”. Zica se tornou umas das maiores e mais relevantes empreendedoras do mundo pelo seu exemplo e pelo negócio que criou.
Em momentos de crise, não queira fazer parte de qualquer festa pobre. O caminho escolhido pela Zica, apesar de todas as suas dificuldades e limitações, mostra que quando descobrimos nossa beleza natural, “nós podemos tudo… nós podemos mais… vamos lá fazer o que será…
Marcelo Nakagawa é professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Diretor de Empreendedorismo da FIAP

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