Bancos e moedas comunitárias fomentam a cidadania financeira em territórios vulneráveis

Bancos e moedas comunitárias fomentam a cidadania financeira em territórios vulneráveis

Com importante papel no fomento ao empreendedorismo, as moedas sociais possibilitam oferta de crédito, letramento digital e fortalecimento local pela disseminação de conhecimentos de gestão

Maure Pessanha

12 de janeiro de 2022 | 17h00

As moedas sociais têm desempenhado um importante papel no fomento e no apoio ao empreendedorismo. São elas que dão suporte a dois perfis de empreendedores e empreendedoras que, em um cenário de pandemia, enfrentam desafios de sobrevivência e são peças-chave tanto para os que já tinham negócios – e estão
lutando para sobreviver à crise – quanto para os que se lançaram no empreendedorismo por necessidade, após a perda do emprego.

A oferta de crédito, o letramento digital e o fortalecimento local, por meio da disseminação de conhecimentos de gestão, são algumas das ajudas fornecidas por bancos comunitários que operam em diversos territórios periféricos do Brasil. Criadas com o objetivo de fortalecer a economia local, as moedas sociais educam financeiramente e são parte fundamental para o desenvolvimento de territórios que reúnem potências empreendedoras com alta capacidade de vencer cenários de vulnerabilidade socioeconômica.

Essas instituições financeiras colocam em prática uma tecnologia social que deve ser replicada; são bancos que funcionam como um elemento de entrada para uma cidadania financeira para além de ter acesso a produtos – oferecem ao cidadão a oportunidade de ter e experimentar serviços financeiros de qualidade.

Ao atuar em regiões que não contam com os bancos convencionais, as moedas são fortemente pautadas por questões sociais do território no qual circulam – como demostra a matéria do Estadão. No contexto do
empreendedorismo, vemos que há um vínculo real com o empreendedor; apoio que é tangível, especialmente, no suporte, na capacitação e definição de estratégias de atuação.

Cédulas da moeda social Umoja, que circula em bairros de Salvador. Foto: Ricardo Prado/Estadão

Na minha visão, essas organizações – que contam com pouquíssimo apoio governamental – precisam de suporte para potencializarem o próprio papel na cadeia de valor do empreendedorismo em comunidades. Hoje, são pontes relevantes entre negócios, fornecedores e clientes. Um dos exemplos dessa potência é o Banco Tupinambá, apoiado pela Artemisia em 2016, no programa Desafio Natura Amazônia: Negócios para Floresta em Pé.

Fundado em 2009 por moradores da Baía do Sol – bairro de oito mil habitantes localizado no Distrito de Mosqueiro, Belém (Pará) –, o Banco Tupinambá nasceu com o objetivo de garantir microcrédito para fomentar a produção e o consumo local, além de promover o desenvolvimento da localidade.

A instituição, que atua dentro do princípio de Economia Solidária, empresta recursos com juros baixos, sem exigência de consultas cadastrais, comprovação de renda ou fiador. A meta é manter a riqueza produzida pelo bairro dentro do próprio território, algo que o banco concretiza ao aceitar a compra e a venda via moeda local, a Moqueio.

O Banco Tupinambá foi o primeiro banco comunitário da região Norte e o 34º em um ranking nacional composto por 150 bancos. Gerido localmente pelo Instituto Tupinambá, ele tem por missão implementar projetos de trabalho e geração de renda por meio de sistemas de economia solidária, focados na superação da pobreza urbana
e rural.

A proposta é fornecer acesso a serviços bancários para os moradores das comunidades em situação de vulnerabilidade social e econômica, que normalmente não teriam acesso a recursos nos bancos tradicionais pela falta de histórico de crédito ou por não terem garantia financeira. A distância física de instituições financeiras convencionais é um fator, também, que limita o acesso de empreendedores e empreendedoras a recursos.

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Hoje, o Banco Tupinambá atua em três eixos distintos e, ao mesmo tempo, complementares. O primeiro pilar é o de correspondente bancário para o qual conta com o sistema da Rede Brasileira de Bancos Comunitários (e-dinheiro), que possibilita fazer transações dos serviços bancários. O segundo é constituído pelos empréstimos
para consumo – via moeda social Moqueio – e para a produção de empreendimentos locais, feito em parceria com o Banco da Amazônia (programa Amazônia Florescer). O terceiro é o controle social, que conta com o envolvimento da comunidade em todas as ações do banco.

Com o apoio da entidade gestora, Instituto Tupinambá, apoia projetos como o Ceci Mulheres, que oferece suporte a dez famílias que atuam com culinária regional; Amazônia no seu Quintal, que ajuda dez famílias no cultivo de hortas caseiras; Mel Social, voltado a trabalhar a cadeia de produção e criação de abelhas regionais; Arraiá Tupi, evento junino que envolve tradições locais; e Réveillon Comunitário, com ampla participação da comunidade.

Com a oferta de serviços e o apoio a iniciativas locais, o banco possibilita a circulação do dinheiro na própria comunidade. Desde a fundação, o consumo interno local passou de 2% para mais de 92% – fato comprovado pela criação de mais de 300 comércios e serviços em um bairro pobre e ribeirinho da Amazônia. Os dados estão
detalhados na pesquisa Produção e Consumo, realizada em 2015 pelo Instituto Tupinambá em parceria com a Association Internationale des Etudiants en Sciences Economiques et Commerciales.

* Maure Pessanha é empreendedora e presidente do Conselho da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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