Baixa escolaridade eleva risco de gravidade do coronavírus, diz estudo

Baixa escolaridade eleva risco de gravidade do coronavírus, diz estudo

Relatório que analisa a covid-19 à luz das desigualdades no Brasil mostra que incidência de doenças crônicas associadas ao grupo de risco é maior entre quem só frequentou até Ensino Fundamental

Maure Pessanha

06 de maio de 2020 | 10h50

No relatório Covid-19 e Desigualdade: A distribuição dos fatores de risco no Brasil, as pesquisadoras Luiza Nassif Pires (Levy Economics Institute), Laura Carvalho (USP) e Laura de Lima Xavier (Harvard Medical School) analisam que, no Brasil, a população em situação de vulnerabilidade econômica tem maior probabilidade de precisar de internação no caso de contaminação pelo novo coronavírus. Entre os motivos, o fato de esses brasileiros estarem à mercê da crise histórica na saúde pública e do colapso econômico – ambas, aliás, se agravam em uma pandemia.

Para além da maior dificuldade de manter o isolamento social, o emprego e a renda, e ter menor acesso à saúde e ao saneamento básico – realidade que já mostra como a doença afeta desproporcionalmente os mais pobres –, o relatório chama atenção, ainda, para fatores que elevam o risco da gravidade da doença entre as pessoas com menor escolaridade. A análise reforça a necessidade de se criar medidas que tratem os desiguais de forma desigual, ou seja, que as ações de combate possam ter maior foco onde existe maior vulnerabilidade social, extrapolando o recorte de idade.

Um dado relevante trazido pela análise – a partir dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNE), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013 – é que a proporção de brasileiros que se enquadra no grupo considerado de risco para a covid-19 é de 42% da população. Ou seja, pessoas acima de 60 anos, cidadãos diagnosticados com diabetes, hipertensão arterial, asma, doença pulmonar, doença cardíaca e insuficiência renal crônica.

A incidência de doenças crônicas associadas aos casos graves da covid-19 é maior entre os que só frequentaram o Ensino Fundamental, sendo 42% ante 33% da média populacional. Na prática, não apenas a idade é um fator de incidência e de risco: a baixa escolaridade também aumenta a probabilidade de contrair a doença e apresentar um quadro grave. Aliás, estudos anteriores já mostravam que doenças como diabetes é mais frequente entre os mais pobres – tanto no País, quanto no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta, inclusive, que as doenças crônicas são mais predominantes em países de baixa ou média renda.

Periferia no extremo norte de São Paulo, em Taipas, vizinho ao distrito da Brasilândia. Foto: Filipe Araújo/Estadão-2007

O combate ao abismo social passa, segundo as pesquisadoras do relatório, pela decisão de proteger os mais pobres por meio de políticas de preservação de renda que permitam o isolamento social e a ampliação do número de leitos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). A desigualdade endêmica do Brasil é estrutural e histórica, mas para muitos ficou escancarada somente diante da pandemia. Levantamento da Rede Nossa São Paulo – Mapa da Desigualdade – mostra que o endereço residencial define o grau de risco à saúde ao qual um indivíduo está exposto.

Em 2019, enquanto a expectativa de vida de um morador de Moema era de 80,6 anos, na Cidade Tiradentes – 27 km de distância – essa marca era de 57,3 anos. Em tempos de pandemia, a distribuição de leitos de UTI vinculados ao SUS comprova essa letalidade associada à pobreza: as três subprefeituras das regiões centrais e mais ricas concentram 60% dos leitos; em contrapartida, 20% da população (mais de 2,3 milhões de paulistanos) vive em 7 subprefeituras de periferias onde não há sequer um leito.

Dados da prefeitura de São Paulo mostram que a mortalidade das pessoas acometidas pelo novo coronavírus na cidade é até 10 vezes maior em bairros com piores condições sociais; sendo Brasilândia o distrito com maior número de óbitos provocados pela covid-19 até o momento. Não é coincidência: a região também aparece no Mapa entre as piores em indicadores essenciais para a qualidade de vida da população.

Em entrevista para o Estado, o economista e professor da Universidade Columbia Joseph Stiglitz – Prêmio Nobel de Economia, em 2001 – defende que precisamos de um novo contrato social. No livro People, Power and Profit (pessoas, poder e lucro, em livre tradução), ele fala sobre a importância de um novo equilíbrio entre mercado, Estado e sociedade civil.

Ou seja, no mundo do século 21, o governo terá que assumir um papel maior do que no passado. Em um cenário no qual a desigualdade cresceu, as políticas públicas devem progredir para combater as distorções sociais. E, acima de tudo, nortear as decisões com base no bem-estar das pessoas, colocando o cidadão como prioridade.

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* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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