As vantagens de um negócio agnóstico

Daniel Fernandes

30 de novembro de 2016 | 13h33

Houve um tempo em que empresas que se declaravam concorrentes não mantinham qualquer relação, a não ser a de competidores. Em alguns segmentos isso ainda acontece e há até quem diga que o colaborador de uma não pode consumir o produto da outra. Porém, em um mundo globalizado e cada vez mais tecnológico, a linha que separa concorrentes e parceiros é cada vez mais tênue.
No âmbito da tecnologia, surgiram aplicativos agnósticos, isto é, que se adaptam a todo tipo de plataforma, dando ao usuário o poder de decisão. Há algum tempo, o usuário de um PC não poderia acessar um arquivo criado em Mac, por exemplo, afinal, Windows e Apple são plataformas diferentes, que concorrem entre si. Essa realidade mudou e o usuário de qualquer uma dessas ou de outras marcas pode transferir e receber arquivos de outros usuários via Dropbox, por exemplo. E tudo isso de forma gratuita.

A tecnologia agnóstica empodera o usuário e abre novas oportunidades de negócios para as empresas. Alguns meses depois de criarem o Dropbox, em 2007, Drew Houston e Arash Ferdowsi, ex-alunos do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA, foram chamados por Steve Jobs, fundador da Apple, para uma conversa. Jobs teria demonstrado interesse em comprar o novo negócio e, há quem diga que, informalmente, ofereceu US$800 milhões pela novidade.
Os jovens sócios não aceitaram a oferta, exatamente por acreditarem que se manter agnóstico, isto é, sem se vincular a nenhuma plataforma específica, é a missão do Dropbox e o que lhe dá valor. A empresa hoje está avaliada em bilhões de dólares e tem mais de 500 milhões de usuários espalhados pelo mundo.
Isso não quer dizer que se eles tivessem vendido o Dropbox para a Apple não teriam feito um bom negócio, mas, a decisão de se manterem independentes se mostrou acertada – vide o valor atual da empresa e o número de usuários.
No comércio eletrônico, os negócios também estão cada vez mais agnósticos. No Mercado Livre, a decisão tomada em 2012 de abrir a plataforma tecnológica levou o negócio a dar um salto gigantesco. Permitir que desenvolvedores independentes utilizem a Interface de Programação de Aplicativos (em inglês, API – Application Programming Interface) da plataforma só trouxe vantagens, como, por exemplo, a integração de lojas virtuais de grandes marcas ao marketplace. Hoje, outros marketplaces – que poderiam ser considerados concorrentes do Mercado Livre – vendem dentro da plataforma.
Outro exemplo é que, ao adquirir a KPL no ano passado, empresa especializada no desenvolvimento de software para gestão de e-commerces, o Mercado Livre identificou também neste negócio potencial para aumentar a oferta de serviços agnósticos: à medida que as empresas passam a operar em diversos canais é necessário supri-las com sistemas que se integram com todos eles.
Enfim, estar atento a todas as possibilidades é o segredo. Não há porque não realizar parcerias, ainda que seja com seu concorrente, quando o negócio é bom para os dois lados e também para o cliente.
Stelleo Tolda é COO (Chief Operating Officer) e co-fundador do Mercado Livre.

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