As botas de Schumpeter, o Empreendedor e a “sina do inovador”

Daniel Fernandes

17 de julho de 2018 | 11h17


Lembro com saudade dos meus alunos de MBA que, mais de vinte anos atrás, achavam pitoresca a insistência de Joseph Schumpeter em preconizar que os ciclos econômicos seriam dominados por empreendedores que, fazendo da inovação tecnológica sua bandeira, lançariam as bases do capitalismo dos novos tempos. Eram os idos de 1939. Agora, 80 anos depois, fala-se somente em empreendedorismo e em inovação. Pitoresco, não?
Schumpeter era uma figura fora do comum. Economista brilhante, discípulo da celebrada Escola de Viena, com o advento do nazismo na Europa migrou para os Estados Unidos onde, em 1932, começou a lecionar na Harvard University. Lá, ele deixou uma longa lista de discípulos fieis, apaixonados por suas teorias, que vislumbravam um futuro inovador; e, também, a lembrança das suas aristocráticas botas de cano alto e de suas calças de montaria, das quais não se separava nem em sala de aula. De fato, Schumpeter foi o filho visionário de duas épocas, preso entre mundos que estavam mudando em ritmo acelerado, contemporaneamente inebriados pelos ritmos dos loucos anos 20 e assustados pelo fragor dos morteiros de uma nova guerra de alcance mundial, que estava por vir.
É genial a ideia de Schumpeter segundo a qual a inovação tecnológica impulsiona a atividade do empreendedor na direção de obter, não somente o merecido lucro, mas também, lucros extraordinários, ou seja, lucros acima da média do mercado. É o caráter extraordinário desses lucros que estimula novos investimentos e novos entrantes naquela indústria, fugindo de outras, que não apresentam a mesma performance e os mesmos retornos sobre capital.
A possibilidade de transferir capitais entre diferentes indústrias de distintos setores da economia democratiza o fluxo de recursos financeiros e, certamente, aumenta a possibilidade de um maior número de empreendedores obterem financiamentos para seus projetos. Desta forma, suas ideias inovadoras podem sair do papel e transformar-se em realidade produtiva, criando empregos e riqueza, e pagando impostos.
Olha só: acabamos de desenhar, na sua essência, o ciclo econômico virtuoso!
Entretanto, -conforme adiantei em outro artigo publicado em 22 de maio passado, neste blog-, a facilidade que os fluxos de capital têm de migrarem de indústria em indústria acaba criando aquela condição que apelidei de “ sina do inovador”, que pode ser resumida no seguinte moto: “uma vez inovador, sempre inovador”.
Tal condição pode ajudar a entender a necessidade contínua de inovar, por parte de quem já inova constantemente.
Resumidamente, existem dois fatores primordiais, que obrigam o empreendedor a criar seu próprio estoque de obsolescência tecnológica (leia-se: a inovar), para poder continuar a oferecer produto novos, tanto em mercados B2C como B2B:
1)      O primeiro fator deriva diretamente da mobilidade dos fluxos de capitais, que podem migrar rapidamente de setor em setor e de empresa em empresa. Nosso empreendedor-inovador deverá continuar a performar positivamente, oferecendo aos investidores lucros acima da média, sob pena do capital ir para outras indústrias. Tarefa, essa, bastante invulgar, por sim só…
2)     O segundo fator é ligado à manutenção do próprio market share. O inovador deve continuar a inovar, criando novos mercados, para poder dominá-los e garantir sua fatia de mercado. De outra forma, outros seguidores virão dividir com ele seu market share, tornando seus lucros sempre menos extraordinários e estimulando, assim, uma fuga de capitais para outros players e outros setores. Não é por acaso que a Apple lança um novo modelo de iphone com periodicidade predefinida e pontualidade britânica, mesmo que o produto não esteja totalmente aperfeiçoado.
Quem falou que inovar seria fácil e rentável, desde o começo?
Acabamos de desenhar o cenário mais calamitoso que possa existir para a atividade do empreendedor-inovador.
Como esse perigo pode ser afastado e como esse quadro pode ser revertido? No próximo artigo, falaremos de inovação disruptiva (ou não).
Luca Borroni-Biancastelli é PhD em Economia e Teorias Econômicas, co-fundador e Dean da Brain Business School, conselheiro emérito da UNICON-Consortium for University-based Executive Education, conselheiro, professor universitário e empreendedor.
 

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