Antônio Ermírio personificou o empreendedor que deveríamos ser

Daniel Fernandes

27 de agosto de 2014 | 07h27

Léo Spigariol é sócio da De Cabrón
Em minha infância, Antônio Ermírio de Moraes era o arquétipo do grande empresário – aquele sujeito que tinha uma empresa e ainda não era chamado de empreendedor. Ele, um neto de sapateiro que, ao longo de sua vida, acreditou no Brasil. A empresa era uma extensão de seus valores. Nesse aspecto, ele estava muito adiantado para seu tempo. E uma das coisas admiráveis em seu modo de conduzir a vida e empresa, a meu ver, era sua simplicidade e a capacidade de entender seu papel.
Hoje, o deslumbre pelo dinheiro é algo que contamina nossa sociedade de uma forma avassaladora. Os adeptos do “rolezinho”, assim como os jovens de um modo geral, se espelham no modo de vida de empresário que abre capital na Bolsa, compra carros com cifras de nove dígitos, desfila com suas modelos pelos restaurantes da moda, embora sua empresa sequer conseguira extrair uma gota de petróleo e seu ouro seja apenas ouro de tolo. Era ídolo de barro, que levou muitos a perderem muito do pouco que tinham.
Antônio Ermírio era a antítese desse herói dos novos tempos. Lembro-me de uma de suas frases mais sábias que sintetizava muito bem seu papel na sociedade: “Se eu não acreditasse no Brasil, seria banqueiro.”
Ele possuía a vontade de produzir algo concreto (cimento era uma das vertentes de sua holding). E possuía a herança de uma geração que aprendera a poupar e trabalhar. A rotina que mantinha de maneira espartana se refletia na figura avessa à ostentação. E, assim, construiu a imagem de um homem de sucesso calcado pelo trabalho e pela ausência de pompa.
Hoje vivemos um mundo curioso: produzir é sinal de prejuízo. Tenha uma ideia e consiga alguns chineses para produzir. Essa é a regra que vale para o mundo. Um movimento que se solidificou com as mudanças do capital internacional (bem, todo capital, no final, se torna internacional). Eram os carros japoneses nos anos 80 dinamitando a indústria automobilística norte-americana. Em seguida, a onda de produzir em países com mão-de-obra barata. Os europeus seguiram a tendência. E hoje ser herói é produzir o nada, o invisível, e fazer as pessoas crerem que estão consumindo algo absolutamente imprescindível.
Nesse tsunami (que em outras épocas chamávamos de maremoto), o empresário que produzia se viu afogado. O homem simples assistiu seus valores “arcaicos” desmoronarem. E, nesse novo tempo, ele já não tinha tempo para exibir e ostentar aquilo que, para ele, era somente fruto de seu trabalho.

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