A terceirização é a solução ruim para o problema errado

Daniel Fernandes

30 de abril de 2015 | 12h24

Rafael Mambretti é empresário e escreve às quintas-feiras no Blog do Empreendeor
Na última semana vimos, lemos e ouvimos bastante sobre a Lei da Terceirização. O Projeto de Lei 4.330 e toda a repercussão envolvida por ele. Protestos, discussões, anúncios do Apocalipse, tudo isso também em meio a protestos contra a corrupção. Os dois podem estar mais ligados do que aparentam.
Já fui empregado, “terceiro” e CLT. Também já tive empresa para não ser um CLT. Para ser sincero, na época, não vi muita diferença entre ser um terceiro e depois me tornar um CLT, mas eu era mais jovem, estava mais preocupado com o dinheiro (e em gastá-lo), que entrava em minha conta do que com os outros benefícios envolvidos. Hoje sou empreendedor, empregador, o “patrão” (palavra horrível essa), mas estou vendo as coisas também de um outro ponto de vista.
Uma das nossas maiores dificuldades na Carbono Zero é tentar equilibrar a boa saúde financeira, ou seja, uma boa margem operacional com um lucro satisfatório. Óbvio, não é? Acho que isso serve para todas as empresas, mas é preciso ir um pouco mais a fundo para podermos entender melhor a situação de cada empresa/segmento.
Empresas de serviço como a Carbono Zero “carregam” e geram bastante vagas de emprego. É fácil de entender o porquê, pois para cada bicicleta, precisamos de uma pessoa (um ciclista). Uma pessoa não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo, em suas limitações físicas, logo, entende-se por que uma empresa de entrega, que precisa estar em vários lugares ao mesmo tempo e rapidamente, precisa de bastante gente.
A produtividade atinge um limite, limite esse que não pode ser extrapolado, pois, novamente, não é uma máquina, mas sim uma pessoa. Condição similar passa uma empresa que presta serviço de limpeza. Há 5 anos tentamos quebrar a cabeça em solucionar essa equação. Pessoas versus produtividade, solucione isso e você soluciona seu lucro. Lucro este que deve ser satisfatoriamente proporcional aos riscos que você quer e está disposto a correr.
Nossa atividade é uma atividade de risco (inclusive de vida), é uma atividade que o mercado não vê valor (paga-se mais por uma refeição no McDonalds), é uma atividade onde as pessoas sofrem preconceito (você nunca reclamou de um motoboy seja na rua ou na sua entrega?), é uma atividade com alto risco trabalhista (uma das razões de se não conseguir um Plano de Saúde) e é uma atividade terceirizada.
Temos que nos equilibrar em uma corda bamba onde de um lado temos um governo que não quer abrir mão de arrecadação e do outro o mercado – que não vê valor e quer sempre pagar menos, mesmo para um serviço “bacana” como o nosso.
Acho que deu para perceber que não é fácil, certo? A essa altura, deu para notar que o governo peca (e muito), em buscar menos generalização e mais entendimentos de cada segmento e de suas peculiaridades. Para só então propor melhores soluções, seja através de novas Leis ou incentivos para fomentar a economia do nosso país. Não vou nem questionar o “core”, a base do nosso antigo sistema econômico com base no consumo, fomentar o consumo para fomentar a produção (que teoricamente geraria mais emprego, que aumentaria o consumo e assim vai constantemente crescendo, certo?). (Ironia).
A Lei da Terceirização é uma solução ruim para o problema errado. Antes de se fazer uma lei como essa se deve renovar as legislações trabalhistas do nosso país, modernizá-las, mudar a relação empregador + empregado. Deve-se rever a carga tributária que faz com que empresas queiram minimizar contratações e aumentar produtividade.
Terceirizar não é a solução. Até quando vamos viver e ter políticos (e suas soluções), imediatistas onde o longo prazo é a próxima eleição?
E você, o que acha?
Um abraço,
Rafael

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