A reunião mais bizarra da minha vida

Daniel Fernandes

31 de julho de 2014 | 07h16

Rafael Mambretti escreve toda quinta-feira
Estamos na última parte de um dia que foi para lá de bizarro. Após descobrir que O descendente de um antigo Rei estava mediando a reunião…
O tempo passa e Dave me informa que iremos para outro lugar, mais precisamente, para o mesmo hotel em que almoçamos. Enquanto estamos voltando, Dave e seu funcionário me situam: descubro que a reunião acontece entre quatro diferentes partes ou famílias. As terras da região foram vendidas há um tempo atrás por um fazendeiro para duas famílias (partes 1 e 2) e não foram totalmente pagas.
Simplesmente a família do fazendeiro (parte 3), quer o dinheiro antes de transferir a propriedade para o nome dos compradores e os compradores querem a transferência antes de dar o dinheiro. A 4ª parte é Dave e sua empresa, que também está atuando como mediadores para que todos possam chegar a um acordo.
Para a Ojaswini, comprar as terras (para um empreendimento futuro) eles precisam que compradores (as duas famílias) e fazendeiro (outra família) se acertem. Os celulares não param de tocar e mais pessoas (homens, sempre só homens, os “chefes” de família) são chamadas e aparecem.
O que eram 10 pessoas, passam a ser 20. A nova adição vem de diferentes partes (alguns são da família dos compradores e outros da família do fazendeiro – vendedor) e não contribuem construtivamente para a reunião, pelo contrário, são mais pessoas para trazer mais discórdia e opiniões próprias.
Não estou estressado, nem tão pouco perdi a paciência, está valendo a experiência. Ao mesmo tempo, sinto pena por Dave e pelas pessoas que estão ali. Minha mente ocidental pensa que eles poderiam ter resolvido o impasse há muito tempo e usando seu tempo para outras coisas mais importantes. Mas na Índia não é assim. O processo é importante, a conversa, o olho no olho, a palavra…noto que acima de qualquer discórdia, existe o respeito.
A reunião não parece ter fim. Percebo que algumas pessoas começam a levantar (normalmente em duplas), vão para algum lugar ali próximo e começam a conversar. Outros dois fazem o mesmo, porém não se juntam aos dois primeiros, mas sim formam uma nova célula de discussão em outro canto. Em um determinado momento, praticamente todo mundo está em dupla (ou trios, até quartetos) conversando ao invés de estarem na reunião.
Parece que combinam o que vão dizer ou fazem uma nova discussão entre eles, entram em um acordo e voltam para a “reunião principal”. Nunca vi nada igual! Sinto que eles gostam, sinto que estão gostando, parece que tratam como algo de extrema importância (e talvez para eles seja mesmo!), como se estivessem discutindo o fim do mundo. Por alguns segundos imagino como deve ser a vida do primeiro ministro por aqui.
Rapidamente, minha mente volta para o presente. Porém, minha atenção já não está mais ali, em observar o comportamento das pessoas e a dinâmica da discussão. Olho a natureza, o céu, respiro o ar puro e relembro por que estou nesse país de milhões de facetas, cores e cheiros. Devem ter sido mais de 5h-6h de reunião e nada de acordo.
O diretor de marketing de Dave diz que iguais a essa terão outras 10. Dou risada. Ele responde: estou falando sério. Me explica que o processo é lento, que as pessoas que poderiam tomar a decisão estão velhas e não conseguem vir até aqui, então, a família e suas várias ramificações (primos, cunhados, agregados de todo gênero), entram no jogo. Ele finaliza dizendo que nesse ramo, na Índia, para se ter sucesso é preciso ter paciência. Sim, concordo! E Dave aparenta ter de sobra.
Antes de terminar meu dia acompanhando o empreendedor Dave, ainda dirigimos outros 100 quilômetros dentro do “estado dos Reis”, o Rajasthan, rumo a Jaipur ou a Cidade Rosa, como é conhecida. Dave ainda entregaria alguns documentos para um cliente. Finalizamos o dia com um mini-tour por uma das cidades mais antigas da humanidade, mesmo sendo meia-noite, sua história e beleza são encantadoras.
Nunca esquecerei meu um dia na vida de um empreendedor indiano. Meus agradecimentos a Devendra Singh Parmar. Semana que vem postarei a entrevista com Dave. Onde ele compartilha sua experiência, erros e acertos, que são universais!
Até mais, Rafael
 

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