A Natura começou distribuindo rosas, não produtos

Daniel Fernandes

26 de julho de 2013 | 07h48

Post fala sobre histórias brasileiras

Em agosto de 1969, Luiz transformava o seu sonho pessoal em realidade. Tinha vendido seu fusca, e com o dinheiro reformou uma antiga e pequena borracharia na Rua Oscar Freire, na cidade de São Paulo, onde montou sua primeira e única loja. Ainda conseguiu um imóvel na Vila Mariana, onde estruturou uma pequena fábrica.
Sem muito dinheiro, imprimiu alguns cartões que ficava distribuindo na rua com a mensagem: “Nós pensamos em você. Gostamos do mundo, dos dons da vida, da música, da amizade, do elo que nos une, da mística engrenagem dos momentos. Aprendemos a força do amor. Com amor, muito amor, nós fabricamos beleza. Venha nos conhecer”.
Junto com o cartão, as pessoas também ganhavam uma rosa. Este não era o jeito de pensar do Luiz, era seu jeito de ser. E o seu jeito de ser tinha sido transformado em cada detalhe na sua lojinha e em seus produtos, mesmo que tudo de forma muito humilde e simples.
Lembrei da história do (agora) Seu Luiz, quando li o post desta semana no Blog do Empreendedor do Estadão PME da Juliana Motter, da Maria Brigadeiro, em que ela explica que uma empresa deve ser mais do que o sonho de alguém, deve ser o seu reflexo. Quanto mais pessoal, mais único será o negócio – explica.
Em um momento em que temos (mais uma vez) uma enxurrada de negócios copiados do exterior (chamados de copycats), vale se inspirar na trajetória da Juliana e do Seu Luiz. A trajetória da Juliana, ela mesma tem contado aqui no blog. A do Seu Luiz, conto, resumidamente, agora.
Luiz tinha sido executivo brilhante em uma multinacional norte-americana até ser designado para liderar uma área que iria explorar uma inovação para o Brasil daquela época: a máquina de barbear. Foi estudar o mercado e começou a se interessar pela pele do brasileiro e ficou espantando com algo que todos sabiam, mas ninguém percebia (e poucos ainda se dão conta) de que não há “o brasileiro” típico.
Havia uma incrível mistura de povos, raças, cores. E por esta razão, não havia “a pele típica” do brasileiro. Mas os fabricantes de produtos para a pele teimavam em oferecer fórmulas europeias para os consumidores brasileiros. E curiosamente, também no final da década de 1970, havia vários copycats brasileiros de fabricantes de cosméticos internacionais, inclusive nos nomes das empresas:  Pierres, Christians, Alexanders e Isabelles; que vendiam para brasileiros que iam ao coiffeur e que davam valor a tudo o que era (ou parecia) estrangeiro.
Mas Luiz queria ser mais brasileiro que o brasileiro “médio” da época. Queria fabricar produtos que atendessem a diversidade de pessoas que havia na cidade de São Paulo, com extratos da biodiversidade brasileira na sua lojinha, onde ficava distribuindo cartões com rosas que falavam sobre dons da vida, amizade, mística, amor. E para complicar, escolheu um nome para a sua empresa que remetia aos hippies da época, que valorizavam a natureza.
Se você estivesse no final da década de 1960, como chamaria um sujeito assim? “Louco” seria uma resposta que muitos concordariam. Mas não precisa pegar a máquina do tempo e viajar tanto assim. Imagine encontrar a Juliana Motter em 2007 e ouvir sua ideia de criar uma loja que só vendesse brigadeiros (algo tão brasileiro que qualquer brasileiro “médio” sabe fazer) em uma lojinha decorada com móveis usados e localizada em uma rua secundária do bairro de Pinheiros. Como a chamaria? Nem precisa responder já que seu pai, mãe e amigos já a chamaram de louca naquela época.
Mas hoje, Luiz Seabra, co-fundador da Natura Cosméticos e Juliana Motter ainda são os mesmos “loucos”, mas as pessoas os chamam de visionários.
“As pessoas que são loucas por acreditarem que podem mudar o mundo, são aquelas que realmente farão isto” – dizia outro maluco visionário chamado Steve Jobs.
Precisamos de mais brasileiros assim: loucos pelo País e pela sua história.