A incrível história do empreendedor cercado de super-heróis

Daniel Fernandes

18 de novembro de 2016 | 12h46

“Pai, quero ser músico…”
“Você está de brincadeira… Investimos muito em você, pagamos um colégio caro e você quer ser músico…” – diz o pai.
E, assim, aos 17 anos, Pierre Mantovani saiu de casa para viver de música. Mas todo final de mês pedia um dinheiro para a mãe para fechar as contas. Pouco tempo depois, estava de volta à casa dos pais. Foi fazer faculdade de engenharia elétrica e a música virou hobby.
Mas era inquieto, matava aulas e só aparecia para fazer as provas em algumas matérias. Entre uma ociosidade e outra, desmontava e montava computadores e aprendeu a programar e foi se meter em algo que era totalmente inovador para a época: webdesign.

Estava no último ano da faculdade quando, do sótão da sua casa, fundou a Tribal, uma então chamada agência de webdesign. Fazia homepages e banners para empresas. Era 1998 e qualquer site visualmente bem desenhado era um grande objeto de desejo das empresas que ainda dependiam do FrontPage para fazer algum ajuste no texto, imagem ou algum botão. Aquele jovem meio rebelde e recém-formado começou a fazer trabalhos para um grande banco norte-americano, o Citibank. Depois, vieram Telefonica e Telesena.
Em 2000, quando o Cadê, Fulano, hpG e Humortadela faziam sucesso, Pierre trouxe alguns amigos para dentro da sua empresa para criarem o Omelete, um portal sobre quadrinhos, cinema, vídeo, música e games. Era mais um hobby para falar do sucesso do Digimon, relembrar o Batfino ou falar da Angelina Jolie como Lara Croft. Mas, no ano seguinte, em 2001, o jovem já não tão rebelde e agora executivo passou a prestar serviços para a construtora Tecnisa e o seu santo bateu com o diretor de marketing Romeo Busarello, que pedia projetos digitais cada vez mais inovadores. Isso abriu outras portas, e a Tribal passou a atender Caixa Econômica Federal, ONU, Roche, Jeep, Dodge, Chrysler, Philips, Microsoft, Natura, tornando-se uma das principais agências de marketing digital do Brasil em 2008, quando foi comprada pela Publicis, na época, o terceiro maior grupo de propaganda mundial.
Ficou pouco menos de dois anos na Publicis, como previa o contrato, e saiu para fazer o que mais gostava… empreender. Criou uma empresa de investimento, investiu em algumas startups, mas o que o mais motivava agora era fazer só coisas que gostava muito. Geek e nerd assumido, foi passar um tempo no Omelete e foi convidado para assumir a direção geral do negócio. Teve a ideia de acrescentar comércio eletrônico no site já que muitos fãs brasileiros não tinham como comprar itens colecionáveis dos seus filmes, séries, games e desenhos favoritos e fundou a Mundo Geek em 2012, agora o maior e-commerce de super heróis do Brasil.
Mas com o Omelete aumentando sua audiência, com mais de seis milhões de fãs e o Mundo Geek crescendo em faturamento mês após mês, veio a ideia de trazer para o mundo físico o que só existia no mundo virtual. E em 2014, Pierre Mantovani criava sua quarta empresa de sucesso, a Comic Com Experience ou apenas CCXP. Já na primeira edição um susto. Quase 100 mil visitantes. O maior público do Brasil para um evento em sua estréia. Nem mesmo o mais otimista dos apoiadores ou patrocinadores imaginava que super-heróis poderiam atrair tanto público. No ano seguinte, novo susto, 142 mil visitantes, todos pagantes. E o público esperado para o CCXP deste ano é de 180 mil visitantes.
Mas a incrível (e desconhecida) trajetória de Pierre Mantovani não é um fato isolado no Brasil. Diversos novos empreendedores estão tendo sucesso no nascente mercado de entretenimento brasileiro. Enquanto lá fora Walt Disney, George Lucas ou Edwin Catmull (Pixar) já se consagraram como exemplos de talentos artísticos que viraram grandes negócios, no Brasil poucos conhecem Juliano Prado e Marcos Luporini (Galinha Pintadinha) ou Kiko Mistrorigo e Célia Catunda (Peixonauta, O Show da Luna).
Por isso, uma das preocupações do Pierre Mantovani no CCXP é também fomentar o empreendedorismo na indústria de entretenimento brasileiro. E neste contexto, criou a Unlock, um evento que ocorre no início da CCXP só para fomentar novos negócios, inclusive para os musicais. Afinal, músico que não é empreendedor atualmente só tem um hobby…
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação no Insper e Head de Empreendedorismo da FIAP

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