A história do refrigerante artesanal GLOOPS

Daniel Fernandes

19 de março de 2018 | 10h52


No meio de tanto “storytelling fake” que grandes marcas tentam nos empurrar, é raro – e também muito satisfatório – quando encontramos um produto com o qual nos identificamos e ao mesmo tempo admiramos as pessoas que fazem a coisa toda acontecer. Eu acredito que é impossível separar o produto artesanal das pessoas que o fazem.
Assim aconteceu quando conheci o GLOOPS, o suco gaseificado (também chamado de refrigerante artesanal) que surgiu em 2012, e venho acompanhando sua trajetória, na luta de abrir espaço no disputado mercado de bebidas, em busca de uma alimentação mais saudável e divertida – valores tão importantes para mim.
Acredito que propagar estas histórias servem de modelo a empreendedores atuais e futuros empreendedores.
O nascimento do empreendedor
Gustavo Siemsen foi um empreendedor precoce. Aos 14 anos – junto com 2 amigos – iniciou uma pequena confecção de calções de surf que vendeu todo o primeiro lote rapidamente. Ao comprar o tecido para o segundo lote, o pai pediu para ele priorizar os estudos “Se der certo, você não vai ter mais tempo de estudar, e se der errado idem. Sem estudar você não irá a lugar nenhum, dizia ele.”
O momento da verdade
“Aos 42 anos, trabalhando na Pepsi, tive um momento de forte reflexão sobre meu propósito de vida e cheguei à conclusão de que além de não estar realizando meu sonho, eu estava indo contra alguns dos meus próprios valores por estar incentivando o consumo de refrigerantes para crianças.”
“Foi neste momento que tive a ideia de criar uma bebida saudável que pudesse substituir os refrigerantes e que eu pudesse ter orgulho de vender. Que máximo seria montar a minha própria empresa e ao mesmo tempo contribuir com algo útil para transformar os hábitos alimentares da molecada, eu imaginava.”
A dúvida
“Neste momento, porém, bateu o desespero de perder tudo o que eu já havia conquistado na carreira, estabilidade financeira e um padrão de vida bem confortável. Tive que amadurecer a ideia por mais 4 anos antes de criar coragem para largar tudo e começar do zero.”
O passo adiante
“O nome Gloops surgiu de um brainstorm com minhas filhas onde começamos a ver expressões em gibis que representavam a sede ou engolir comida. Vimos palavras como Glupt, e fomos adaptando até chegar em Gloops, que tem um som parecido com um gole de bebida. Além disso queríamos um nome que pudesse ser universal, que funcionasse independente da língua ou do país que estiver sendo vendido.”
A produção
“Iniciamos a produção de forma artesanal na cozinha do nosso escritório há 3 anos atrás. Nós espremíamos as frutas, coávamos o suco e usávamos uma máquina que nós mesmo desenvolvemos para gaseificar. Esta máquina foi construída usando algumas peças de fábricas de cerveja artesanal adaptadas a um trocador de calor, pois o suco tem que estar bem gelado para incorporar o gás. Este desenvolvimento foi um processo longo que fomos aperfeiçoando ao longo do tempo.”
A diferença
“Nosso suco gaseificado não tem adição de açúcar e os refrigerantes naturais tem bastante açúcar na fórmula. Nós até usamos o termo refrigerante saudável para facilitar na explicação do que é o nosso produto, pois o fato de ser natural não significa que ele será saudável. Você pode colocar bastante açúcar orgânico na sua bebida e ela será natural, mas menos saudável que um suco sem adição de açúcar. Outro conceito que está surgindo é o do refrigerante artesanal, ou craft soda. Assim como no mercado de cervejas, nós acreditamos que as pessoas estão cada vez mais em busca de produtos artesanais, por isso há bastante espaço para estas opções que estão surgindo no mercado. Mas acreditamos que se o produto, além de ser artesanal, também for saudável, terá mais chances no médio e no longo prazo. Os consumidores estão cada vez mais bem informados e rapidamente eles estão percebendo as diferenças.”
O crescimento
“O primeiro ano foi assustador. À medida que o interesse pela bebida foi crescendo e as pessoas queriam volumes maiores para levar para casa nós tivemos que adaptar o processo. A máquina para gaseificar o suco ainda não estava totalmente pronta, mas os consumidores queriam comprar quantidades cada vez maiores. Tivemos alguns momentos de quase pânico, em que tínhamos encomendas grandes para o dia seguinte e a máquina não gaseificava direito ou o nosso fornecedor de frutas do Ceasa teve uma inundação e não conseguiu entregar. Corremos para o supermercado mais próximo e saímos com dois carrinhos cheios de limão, mas nunca deixamos de atender o cliente. Tivemos muitos momentos em que adaptar era o nome do jogo. Hoje, com a produção na fábrica, é bem mais tranquilo.”
O trabalho numa pequena empresa
“Tudo é muito diferente, as rotinas, os desafios, a falta de recursos, a falta de segurança. Mas para mim o que é mais relevante é o fato de não precisarmos fazer politicagem para agradar este ou aquele alto executivo, e não gastamos horas e recursos em reuniões intermináveis. Fazemos o que é importante para o consumidor e para o negócio, pois se der errado é no nosso bolso que irá doer. O fato de eu e o Ricardo, meu sócio, termos vivido por muitos anos em grandes empresas, nos permite trazer toda a experiência estratégica corporativa e implementar uma série destes processos no dia a dia da nossa pequena empresa. Então conseguimos extrair o que há de melhor numa grande corporação e somar com a agilidade e espírito inovador de uma startup.”
O futuro
“Hoje nosso volume mensal é de 25 mil litros, sendo que no primeiro ano vendíamos cerca de 1.500 litros por mês. Queremos estar presentes nas principais redes de supermercados, restaurantes, padarias e lojas de produtos naturais de Manaus a Porto Alegre.”
A definição do empreendedor, por Gustavo Siemsen
“O empreendedor é uma pessoa que gosta de sonhar, mas não se contenta apenas em sonhar, gosta de fazer, de transformar, uma pessoa irrequieta, que quer ver o sonho se tornando em realidade.”
Ivan Primo Bornes (ivan@pastificioprimo.com.br) – empreendedor e fundador da rede de rotisserias Pastificio Primo (www.pastificioprimo.com.br)