A história do empreendedor que chegou ao topo do mundo e perdeu (quase) tudo rapidamente

Daniel Fernandes

03 de setembro de 2014 | 06h43

Leo Spigariol é dono da De Cabrón
As maiores lições nós tiramos das derrotas. Quando estamos no auge, lá no topo do mundo, só conseguimos olhar para o céu. É difícil querer olhar para baixo, quando se está tão perto de Deus, não? Há tempos atrás, tive uma aula sobre o tema “negócio próspero”.
Imagine entrar numa empresa e ser recebido pelo dono. A empresa ocupando uma área de terreno generosa, com muito espaço para expansão. E tudo patrimônio. Você entra na empresa e sente a atmosfera do século passado rondando: paredes velhas e encardidas, equipamento antigo e tão encardido quanto, processo semi-automatizados convivendo com manuseio humano.
Nesse dia, senti-me no começo do século XIX, ou algo semelhante a essa época que habita meu imaginário. Lembro de Chaplin, em ‘Tempos Modernos’, apertando parafusos. O que vi ainda era menos moderno do que isso. Uma linha industrial desconexa, dispersa, sem integração e, mais relevante, sem procedimentos, sejam de segurança, higiene ou produtivos e técnicos. Uma enorme linha de montagem com aparência de cemitério. Os quase 100 funcionários que ali deveriam estar, eu não vi. Estavam dispersos e aparentemente sem controle produtivo.
A minha surpresa foi o proprietário da empresa dizer que o estado em que a empresa se encontrava era única e exclusivamente culpa dele. Afinal, no auge, enquanto muitos estavam investindo o capital da empresa em melhorias e, mais importante, estavam, digamos, antenados com o futuro tecnológico, ele, o proprietário, estava usando o capital acumulado em proveito próprio. Afinal, trabalhará tanto até então que, por algum motivo, concluiu que deveria usufruir do produto do seu trabalho. Assim o tempo escoou pelos olhos como numa noite de verão. Assim a fortuna se foi e a obsolescência bateu às portas da empresa.
Recordei-me desse caso de outrora porque temos a ideia de que a empresa é nossa. Logo, todo o lucro também. Isso ocorre de um modo geral, quase uma regra no nosso País. Por vezes, os verdadeiros empreendedores são vistos como workaholics, pessoas sem vida própria, distantes da família, incansáveis. Sem dúvida. Talvez seja esse misto de adjetivos. Ou, diria eu, apenas uma paixão pelo seu fazer e pelo seu viabilizador do seu fazer, sua empresa. E a consciência de que um dia aquilo tudo pode se desmanchar como nuvem. Basta uns ventos contrários soprarem e ele não saber acompanhá-los.
Construir o próprio negócio significa construir um negócio coletivo, que não é totalmente. Ou é, somente de uma maneira diferente. Tente, simplesmente, se colocar como o pastor de um bando de ovelhas que deve estar atento a qualquer lobo-mau pelo caminho.
 
 

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