A habitação adequada como faísca da transformação social

A habitação adequada como faísca da transformação social

Negócios de impacto social focam em melhorar as condições de moradia para famílias de baixa renda por meio de reformas, cursos de capacitação em reparos residenciais e instalação de energia solar

Maure Pessanha

08 de janeiro de 2020 | 09h00

O sonho de contribuir para que os brasileiros e brasileiras possam viver com dignidade e poder de escolha passa – na percepção da Artemisia – pelo apoio a novas iniciativas empreendedoras no setor de habitação. Acredito que ao converter uma casa insalubre em um ambiente seguro, digno, confortável, saudável e acolhedor estamos acendendo uma faísca de transformação. A forte crença de que essa mudança tem a potência necessária para impactar positivamente a vida de pessoas, famílias e da sociedade tem norteado o empreendedorismo de iniciativas como Arquitetos da Vila, Revolusolar e Se vira, mulher!

O negócio de impacto social Arquitetos da Vila, por exemplo, atua para combater o problema da inadequação de moradias. Na prática, a empresa de Belo Horizonte realiza reformas com qualidade, preço acessível, possibilidade de financiamento e prazo adequado – a um custo médio de R$ 7 mil, com parcelas de R$ 300 a R$ 600. Fundado por Wanda Reis e Lucas Vasconcelos, a iniciativa responde à enorme demanda que temos no Brasil por reformas habitacionais e assistência técnica a baixo custo. O que vemos no País é que a maioria das construções e reformas são feitas sem o apoio de um profissional especializado e planejamento; esse procedimento pode resultar em moradias de baixa qualidade e problemas à saúde dos moradores – por questões como umidade e falta de ventilação.

Um outro ponto relevante é que as reformas realizadas via autoconstrução são mais demoradas e tendem a ser mais caras por conta das compras fracionadas do material, que muitas vezes, é usado de forma incorreta, gerando insegurança e desperdício. Ou seja, por não ter acesso a um apoio profissional para as reformas, muitas pessoas em comunidades acabam pagando mais, ao final do processo. O que chamamos de “o ônus da pobreza”.

Wanda Foresti e Lucas Jório, fundadores da Arquitetos da Vila. Foto: Marco Torelli

Uma outra questão muito pertinente para a melhoria da qualidade das habitações da população de menor renda é a inclusão feminina nesse processo. No país, 30,6% das mulheres realizam tarefas de pequenos reparos em casa, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sendo que muitas assumem as tarefas de manutenção, reforma e construção sem o conhecimento necessário para realizar um trabalho seguro. Na construção civil, elas representam 10% dos profissionais, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Em contrapartida, 40,5% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. E muitas se sentem inseguras para receber um profissional do sexo masculino nas residências; há uma demanda por autonomia para realizar sozinhas pequenos reparos e reformas.

Nesse cenário, as empreendedoras Thaís Nobre e Edna Braga criaram um negócio que foca na capacitação feminina para atividades da construção civil. O Se Vira, Mulher! apresenta uma solução baseada em minicursos para o público feminino – como marcenaria, elétrica, hidráulica, jardinagem, pintura e papel de parece, revestimentos de parede e piso, e mecânica automotiva –, com conteúdos básicos, técnicos e práticos de reforma e manutenção. Desenhado para oferecer uma experiência acolhedora e de segurança, a empresa desperta a autoconfiança e empodera suas alunas. A escola funciona em São Paulo, com diversos cursos e atende a população feminina em situação de vulnerabilidade econômica com vagas subsidiadas por meio de parcerias com empresas e organizações.

Importante ressaltar que esse negócio está associado à demanda por capacitação e oportunidades para profissionais da construção civil. A necessidade de ampliar a qualificação para o trabalhador da construção civil é latente. Os profissionais do setor têm um histórico de baixo nível educacional e atuam de maneira informal, costumando ter um rendimento financeiro menor que os trabalhadores formalizados. Com a qualificação, esse ciclo começa a ser rompido.

Thaís Nobre e Vanessa Louzada criaram a Se Vira, Mulher!, escola que capacita mulheres a fazer serviços gerais em residências. Foto: Marco Torelli

Por último, destaco a demanda por iniciativas focadas no acesso e na eficiência de serviços básicos da moradia. Fundada por Eduardo Avila e Juan Cuervo, a Revolusolar promove o desenvolvimento sustentável nas comunidades fluminenses por meio de instalações de energia solar, capacitação profissional de instaladores e atividades educativas. Assim, busca democratizar o acesso a energias limpas, estimulando bons hábitos de consumo de energia e apoiando a economia local.

A força desses empreendedores está em enxergar que moradias afastadas dos centros estão privadas de parte dos serviços básicos de infraestrutura como água, esgoto, coleta de lixo e energia elétrica. Avila e Cuervo sabem que é preciso considerar alternativas que levem em conta a sustentabilidade ambiental e viabilidade financeira das pessoas em situação de vulnerabilidade econômica, porque a habitação representa, hoje, a maior despesa de consumo familiar – sendo que uma parcela considerável dos gastos está atrelada a taxas desses serviços.

Eduardo Avila e Juan Cuervo, fundadores da Revolusolar. Foto: Marco Torelli

Os três negócios que trago aqui nessa semana foram destaques do Lab Habitação: Inovação e Moradia. Em sua segunda edição, o programa de aceleração de curto prazo potencializou a atuação de empreendedores responsáveis por 14 soluções inovadoras no setor de habitação – iniciativa que avaliou mais de 490 negócios do setor e contou com a aliança estratégica da Artemisia, Gerdau, Instituto Vedacit, Tigre, Votorantim Cimentos, CAIXA e CAU/BR.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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