A geração perdida

Daniel Fernandes

10 de março de 2016 | 09h51

Alguém reparou? Uma geração inteira de empreendedores brasileiros está sendo massacrada pela crise que martela o País!  Não me refiro apenas a empresas que fecharam, ou que encolheram, que demitiram, que recuaram ou mesmo que congelaram seus planos de crescimento com a crise. Falo especialmente de todos aqueles futuros pequenos empreendedores que sequer chegarão a surgir, porque preferiram se acomodar em algum emprego, intimidados por verem tantos outros sucumbirem.
Além de debilitar a política e drenar a economia, o atual tornado que estacionou entre nós está estraçalhando os sonhos de toda essa geração que, nos últimos 5 anos, apostou as economias de uma vida, energia, tempo, ideias e expectativas no projeto de um negócio que, apesar dos esforços, muitos não vão conseguir sustentar pelos próximos meses.
E eu me pergunto: quantos anos vamos demorar para criar novamente uma força empreendedora significativa? Quanto teremos retrocedido? Porque a verdade é que não se formam bons empreendedores de um dia para o outro. É um processo demorado, complexo, caro, de muito estudo, de exemplos estimulantes, positivos, com perspectivas reais de prosperar.
Ao longo dos últimos anos, foi impressionante e animador o desenvolvimento na cultura empreendedora no Brasil. Jornais, revistas, programas de TV, cursos especializados, este blog… Fornecendo informação, energia vital, troca de ideias, sinapses. Uma grande movimentação, ganhando força e volume, uma sensação arrebatadora de que “agora vai”!  Tínhamos voltado a acreditar que éramos o país do futuro, a terra das oportunidades, o mercado emergente da hora no mundo. Tínhamos voltado a soltar nossos sonhos, apostar nas nossas ideias, investir em nossos projetos.
Mas o tsunami pegou a todos nós no meio da travessia até a terra nova, afundou nossas ambições, atropelou nosso plano de navegação, turvou nossa visão de futuro. Nos roubou a linha de chegada. Quanto esforço e investimento perdido, todo o preparo e treinamento, toda essa mobilização agora sem sentido. E não só de quem empreendeu, mas de seus colaboradores, sua família, seus fornecedores, até seus clientes – um efeito dominó de frustrações.
Apesar de ser um otimista incorrigível, hoje confesso que me bate uma tristeza: um melancólico sentimento de desperdício. No meio da luta para manter o ânimo das tropas, me vejo obrigado a fazer um minuto de silêncio por todos os futuros grandes e brilhantes empresários que estamos dizimando. Mais uma geração perdida de empreendedores deste país.
Ivan Primo Bornes – fundador do Pastificio Primo e veterano empreendedor, no meio da tempestade procura todos os dias manter a calma e o foco no sonho, esperando a grande crise passar, e com todos a salvo.

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