A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte

A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte

Negócio de impacto social ajuda músicos a gerenciar carreiras em meio a um cenário de retração na indústria cultural: número de empresas ligadas ao setor caiu 7,9% nos últimos 10 anos

Maure Pessanha

29 de janeiro de 2020 | 14h12

O setor cultural sofreu uma retração significativa: em 10 anos, o número de empresas ligadas ao setor caiu 7,9% – menor patamar da série histórica. No mapeamento Indústria Criativa no Brasil – que engloba cultura, via empresas e iniciativas que atuam com música; patrimônio e artes; artes cênicas e expressões culturais – o PIB Criativo totalizou R$ 171,5 bilhões, em 2017, representando 2,61% de toda a riqueza produzida no território nacional e contando com mais de 800 mil trabalhadores formais no período.

Analisando esses dados, vemos que embora seja um setor com grande potencial de contribuir com a economia e gerar empregos, a prática apresenta desafios para as organizações que se propõem a trabalham com o tema cultural. A falta de investimentos e incentivos para o crescimento sustentável dessa indústria causa prejuízos financeiros e inviabiliza o sonho de artistas brasileiros, sobretudo os de menor renda. São homens e mulheres que desistem de transformar o talento em carreiras viáveis.

Para endereçar esse desafio, um negócio de impacto social atua com o objetivo de auxiliar músicos a gerenciar as carreiras de forma integral. A plataforma daleGig – liderada pelos empreendedores Ana Paula Maich, Raphael Evangelista e Juliette Beaudet – nasceu da agência cultural franco-brasileira 2DL, que atua com produtos e serviços focados na conexão entre artistas, sobretudo músicos independentes, e o mercado.

Com a daleGig, esse profissional tem acesso a informações de custos logísticos para elaborar orçamentos viáveis, plenamente alinhados às demandas dos contratantes (que também podem acessar a plataforma para buscar profissionais). A solução empodera o músico, auxilia na gestão da carreira e na construção de turnês e cria um ecossistema de confiança no mercado musical brasileiro. Até 2021, é esperado um crescimento médio anual de 5% no segmento de shows ao vivo – sendo o Brasil é líder no segmento de música na América Latina – aponta dados da PwC.

Raphael Evangelista, Ana Paula Maich e Juliette Beaudet, da daleGig. Foto: Marco Torelli

A daleGig impacta na formalização do mercado de música com boas práticas. Por meio dessa plataforma, os profissionais têm acesso a uma remuneração justa – e consequente aumento na renda; ao mesmo tempo, a solução descentraliza e democratiza informações sobre o mercado. A ideia da plataforma surgiu da experiência dos empreendedores: Raphael é músico e vivenciou os desafios enfrentados por esses profissionais.

Com a solução, a carreira musical – associada, à primeira vista, a uma atividade da elite, por conta das barreiras e inseguranças de um mercado informal, passa a ser fortalecida, formalizada e democratizada, em especial, aos profissionais iniciantes e de menor renda. Como diz a música dos Titãs, “a gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte”.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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