A corrente do bem entre a nova geração de empreendedores brasileiros

Daniel Fernandes

22 de fevereiro de 2019 | 16h07

Por Marcelo Nakagawa *

Eu poderia citar centenas de casos, mas a postura de Lucas Momm de Melo é um exemplo que talvez ilustre esta corrente. No final de janeiro agora, recebi sua mensagem por e-mail: “Olá prof. Nakagawa, tudo bem? Primeiramente um feliz Ano Novo, espero que tenha entrado com o pé direito em 2019. Fiz meu planejamento pessoal para o ano e uma das frentes é seguir/aprimorar minhas mentorias, pois me faz muito bem ajudar outros empreendedores”.

Em seguida, ele me pede que encaminhe empreendedores que faça sentido ele mentorar. Para mim é uma responsabilidade, pois há um grande respeito e admiração mútua e sei que preciso encaminhar empreendedores que ganhem com o conhecimento, a sabedoria e a rede de contatos de Lucas, mas que ele também aprenda algo novo, relevante e que também expanda sua rede de contatos.

Ilustração: Pixabay

Uma relação de mentoria nunca pode ser algo em que um ganhe e o outro perca seu tempo. Afinal, tempo é o recurso mais limitado e precioso de qualquer empreendedor bem-sucedido. E ele é um deles! Liderando a Mindminers, uma startup que contribui para que empresas tomem melhores decisões a partir de pesquisas de mercado, conquistou como clientes dezenas de grandes empresas, várias delas multinacionais, a ponto de colocar sua empresa na lista do Linkedin Top Startups do Brasil de 2018, ao lado de outras grandes startups como Nubank, GuiaBolso, Stone, QuintoAndar e Loggi.

Mas a postura e o interesse de Lucas em apoiar novos empreendedores não é algo isolado. Praticamente todos os novos empreendedores brasileiros que estão tendo sucesso em seus negócios guardam um tempo para orientar quem está dando os primeiros passos à frente de um negócio. E muitos ainda, quando se enxergam naqueles empreendedores nascentes, acabam até investindo em suas startups. É a nova corrente do bem entre esta nova geração de empreendedores.

Luis Felipe Palomares, outro empreendedor desta nova geração, explica que, em boa parte, conseguiu liderar um forte crescimento da startup que fundou, a SemHora, que depois se uniu à Eventbrite, porque sempre conseguiu contar com o apoio de mentores. Agora, já em posição mais confortável, também apoia novos empreendedores. “Mas não adianta aparecer do nada e pedir mentoria”, avisa. “É preciso saber se vender, mostrar dedicação e, principalmente, vir preparado.”

“A mentoria já se tornou presente na rotina de muitos empreendedores e também na de executivos de grandes corporações”

Saber se vender, mostrar dedicação e estar preparado para buscar um mentor e receber mentoria é o que faz com que boa parte dos empreendedores nascentes não tenha sucesso neste processo.

A dificuldade em encontrar um mentor já começa pelo próprio desconhecimento a respeito do assunto. Difundido pela Endeavor Brasil a partir do ano 2000, a mentoria é conduzida por alguém que é especialista em um determinado assunto e consegue ser didático a ponto de entender o contexto e a demanda de quem o(a) procura e orientá-lo(a) na tomada das melhores decisões, considerando as limitações do empreendedor nascente e seu negócio.

Com o avanço das startups nos anos seguintes, a mentoria passou a ser utilizada em diversos programas como aceleradoras, cursos e programas governamentais como o Startup Brasil, Inovativa Brasil e Fapesp Pipe Empreendedor. Atualmente, a mentoria de empreendedores já se tornou presente na rotina de muitos empreendedores e também na de uma parcela crescente de executivos de grandes corporações.

“Praticamente todos os novos empreendedores brasileiros de sucesso guardam tempo para orientar quem está dando os primeiros passos”

Sem conhecer minimamente o processo de mentoria, muitos empreendedores nascentes não se dedicam tanto ao processo quanto o mentor que busca apoio. Além disso, muitos não estudam, não conseguem processar informações e ainda acreditam que são inovadores e encontraram a maior oportunidade da face da Terra, mesmo sem ter nenhuma argumentação concreta nem validações de mercado que comprovem esta incrível proeza. Por fim, não sabem se vender para um cliente e muito menos para alguém que queira como mentor.

Ter alguém que o(a) indique, apresentar informações que sejam verdadeiramente interessantes para o mentor e, especialmente, demonstrar o interesse que busca realmente aprender com sua sabedoria são aspectos imprescindíveis ao abordar alguém que possa e queira mentorá-lo(a).

Neste contexto, uma das várias lições que aprendi com Lucas é como ele resume o seu sucesso. “Todas as vezes que tentei vender algo ou buscar dinheiro de investidor, ganhei conselho. Mas quando ia pedir conselho, consegui vender e até eventualmente consegui investimento.”

* Marcelo Nakagawa é um eterno aprendiz, que, em alguns momentos, é professor de Inovação e Empreendedorismo do Insper

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