A comida transforma: o case de impacto social da Gastromotiva

A comida transforma: o case de impacto social da Gastromotiva

Organização é uma das pioneiras a associar a gastronomia a um instrumento de transformação de cidadãos em situação de vulnerabilidade socioeconômica; tocadas por ex-alunos, 50 Cozinhas Solidárias se espalham no Brasil

Maure Pessanha

23 de dezembro de 2020 | 05h00

Próximos do final de 2020, um sentimento de retrospectiva começa, naturalmente, a invadir muitos de nós. Vivemos meses tão intensos – e que exigiram tanta coragem de cada ser humano do planeta – que a sensação que permanece, na minha percepção, é a de profunda gratidão por ter visto tantas pessoas responderem aos desafios da pandemia com solidariedade. São cidadãos que fizeram o esperado de um modo diferente, ou seja, que usaram a criatividade e os recursos disponíveis para transformar a realidade de escassez em abundância de iniciativas empáticas.

O economista e Nobel de Economia Amartya Sen, no livro Desenvolvimento como Liberdade, afirma que “o poder de fazer o bem quase sempre anda junto da possibilidade de fazer o oposto”. É uma frase forte e que desperta uma profunda reflexão sobre as escolhas que podemos fazer.

Hoje, gostaria de destacar o caminho escolhido pelo empreendedor social David Hertz, um dos pioneiros no Brasil a associar a gastronomia a um instrumento potente de transformação da vida de cidadãos em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Com a Gastromotiva – organização social que fundou para oferecer educação gratuita e potencializar a empregabilidade –, o chef tem gerado inclusão não apenas no nosso País, mas também no México, na África do Sul e em El Salvador, territórios onde a organização aportou em um processo de internacionalização das atividades. Essa história de consolidação de propósito e crescimento exponencial teve início há 16 anos, com um convite feito a David para ministrar aulas no projeto Cozinheiro Cidadão, na Favela do Jaguaré, em São Paulo.

David Hertz, nome por trás da Gastromotiva. Foto: Marina Malheiros/Estadão

Com muita empatia, desconforto com as condições sociais brasileiras e zero expertise em ações para transformar a realidade vigente, ele se aventurou a aprender a formatar um negócio de impacto. No longínquo 2004, em meio a projetos e sonhos, ele encontrou a Artemisia.

Fundada em 2006, a Gastromotiva é cocriadora do Movimento de Gastronomia Social – iniciativa global que conecta pessoas, projetos, empresas, universidades, agências internacionais, governos e a sociedade civil em torno do poder transformador da comida. Fome, desperdício, falta de oportunidades, obesidade e má nutrição são desafios globais que demandam ações conjuntas.

A partir da experiência acumulada em mais de uma década de trabalho e impacto social no Brasil, o empreendedor social segue transformando vidas nos locais em que atua e cada vez mais amplia a visão e ação global de cooperação com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, da ONU.

Nessa trajetória, por meio da educação via cursos profissionalizantes, a Gastromotiva formou e encaminhou para o mercado de trabalho mais de 6 mil jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica e ofereceu educação nutricional a 100 mil pessoas. O Refettorio Gastromotiva – inaugurado durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016 – é um restaurante-escola, cujos pratos foram elaborados pelos melhores chefs do mundo: Alain Ducasse, Mauro Colagreco, Virgilio Martinez, Micha, Kamilla Seidler e Manu Buffara.

Ao lado dos alunos da Gastromotiva, esses ícones utilizaram como matéria-prima apenas alimentos que seriam desperdiçados, embora estivessem em perfeito estado para consumo. Na prática, o Refettorio já evitou o desperdício de mais de 100 mil quilos de alimentos, transformados em mais de 140 mil pratos de comida por chefs e cozinheiros para pessoas vulneráveis socialmente, principalmente em situação de rua.

O Refettorio Gastromotiva atendia, antes da pandemia, 90 pessoas todas as noites com um cardápio gastronômico. Diante do contexto, David Hertz e parceiros desenharam formas de ampliar o atendimento; com isso, criaram um Banco de Alimentos para apoiar 40 organizações do Rio de Janeiro.

Uma grande virada veio de ex-alunos. Desempregados, muitos viram que o Reffetorio oferecia ingredientes para quem quisesse cozinhar para a população de rua fluminense. Uma aluna empreendedora pediu parte dos alimentos para produzir quentinhas destinadas a alimentar crianças que estavam sem merenda. Dessa iniciativa, surgiu o novo projeto Cozinhas Solidárias.

Hoje, são 50 no Brasil e duas no México, todas conduzidas por ex-alunos apoiados pela Gastromotiva; pessoas que transformaram as próprias casas em centros produtivos de marmitas; se viram, neste momento que vivemos, como empreendedores sociais que usam os alimentos como faísca para a transformação social.

* Maure Pessanha é empreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil.

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