A arte de transformar o comum em algo especial (dois açougueiros bem diferentes)

Daniel Fernandes

06 de maio de 2014 | 06h42

Bruno e Juliano Mendes escrevem toda terça-feira
“Vocês estão loucos?”. “Arroz é arroz. Feijão é feijão. Cerveja é cerveja. Pra que esse papo de Pale Ale e Weizenbier?”. “Quem são vocês para pensar que podem vender uma cerveja mais cara que a Skol?”. Essas foram algumas das opiniões um tanto quanto negativas que ouvimos quando lançamos os primeiros produtos da Cervejaria Eisenbahn, em 2002. Não estávamos trabalhando com um produto revolucionário, mas participando da criação de uma nova categoria para uma bebida tão antiga quanto comum, existente em quase todas as partes do mundo. E estávamos transformando o comum em algo especial (pelo menos no Brasil, que até então só conhecia um ou dois tipos de cervejas produzidas por grandes companhias, que se diferenciavam mais pelo rótulo que pelo sabor).
E isso também é pioneirismo. Não é preciso inventar algo totalmente novo, você pode criar uma nova categoria de produtos, como ajudamos a fazer com a cerveja, baseado em algo que já é feito em outros lugares do mundo. A pergunta é muito simples e desafiadora: se não dá para ser o primeiro, dá para fazer com mais qualidade e, melhor ainda, diferente de tudo que  já existe no mercado?
Assim como cerveja é cerveja, carne é carne, certo? Não é assim que pensa o chef Felipe FaccioDilda, que fundou no ano passado, em Balneário Camboriú (SC), o Açougue Del Toro, inspirado nas mais tradicionais casas de carnes da Itália, onde morou por sete anos. Além das carnes frescas ou matutadas por dry age e da variedade de cortes e produtos diferenciados, o empreendimento prima pela apresentação – todos vestem boinas e gravatinhas borboleta em um ambiente limpo e organizado – e pelo atendimento: quem não gosta de ser recebido pelo próprio dono de um estabelecimento?

Felipe transformou o ato banal de comprar carne em uma experiência distinta, fazendo do comum algo especial. O italiano Dario Cecchini, tido como o açougueiro mais famoso do planeta, se diferenciou ao resgatar o papel deste profissional em um mundo onde compramos nossa carne em embalagens a vácuo em prateleiras de supermercados. Hoje, é um verdadeiro popstar e recebe em seus três restaurantes, na minúscula vila de Panzano, na Toscana, visitantes de todos os continentes em busca de suas carnes de cortes e preparos perfeitos.

Criar uma nova categoria para um produto comum, tornando-o especial, traz desafios específicos para o empreendedor. Primeiro, é preciso se certificar de que há matéria-prima para fazer o que se deseja. Passamos por essa dificuldade nos primeiros anos de Eisenbahn, quando não haviam maltes, lúpulos e fermentos especiais no País e precisávamos importar. Outro problema é encontrar pessoas que saibam trabalhar com este novo produto: será preciso treiná-las muito bem para garantir a qualidade máxima no empreendimento. Um terceiro – e talvez o maior – desafio é preparar o mercado para a sua nova categoria de produtos, fazendo seus clientes perceberem que aquilo que você oferece é uma opção melhor de compra. Lembre-se: ninguém precisa daquilo que não conhece.
A linha de queijos especiais Vermont, que planejamos lançar até outubro deste ano, vai ter de responder a todos esses desafios. Queremos, assim como fizemos com a Eisenbahn, criar uma nova categoria de queijos, diferenciados tanto pelo sabor quanto pela apresentação. Ainda não produzimos os queijos em si, mas já estamos planejando as embalagens. O que vocês acham?

Para conhecer mais sobre o Dario, visite o site dele, ou assista ao vídeo em que ele disseca um porco em frente a platéia ao som deAC/DC. Sobre o Felipe e seu Açougue Del Toro, você acha mais informações em sua Fan Page no Facebook
 

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