2015, o fim do real: insanidade é fazer o mesmo esperando algo diferente

Daniel Fernandes

18 de setembro de 2015 | 07h02


Parte do título é uma frase de Albert Einstein, mas explica a decisão de alguns em 2015. Para muitos, este é um ano para ser esquecido. Mas será lembrado. Vai se lembrar de como não estipular uma meta e depois dobrá-la, de como tomar banho com pouca água e do medo de passar dificuldades financeiras após anos de tranquilidade. 2015 é o ano em que fomos rebaixados pela corrupção, pela inflação, pela incompetência e, principalmente, pela ganância. E este rebaixamento traz um vazio agoniante para muitas pessoas.
Enquanto alguns preenchem o vazio com a depressão, outros o usam como uma página em branco para uma nova obra a ser traçada.
Muitos amigos e conhecidos escolheram não se rebaixar e enfrentaram as suas realidades em 2015. Fizeram dos seus vazios, suas plenitudes. Tornaram-se belas criações de suas próprias crises. Viraram empreendedores de si mesmos.
Três deles ilustram o início, o meio e o fim (não como término, mas como finalidade) desta chance de recomeçar neste ano louco.
Os dois dias mais importantes em sua vida foram o dia em que nasceu e aquele em que descobriu porquê. A frase é do escritor norte-americano Mark Twain, mas deve unir todos os neurônios deste meu primeiro amigo. Jovem prodígio, liderou duas das principais organizações  não-governamentais do país antes dos 30 anos onde conheceu praticamente todos os principais empreendedores do Brasil e alguns dos principais executivos. Poderia ter escolhido assumir uma posição executiva em muitas grandes empresas, mas decidiu largar tudo para tirar um período sabático para vivenciar novas experiências, estudar mais sobre si mesmo e sobre a vida, estar muito mais tempo com seus filhos e quem sabe, descobrir o seu segundo dia mais importante na vida.
O segundo amigo encontrou na educação o seu meio de viver (e não um meio de vida). Depois de uma carreira brilhante no setor financeiro e, em seguida, como investidor em novos negócios, resolveu parar a sua vida insana e descer para se perder em novos caminhos. Foi estudar empreendedorismo, psicologia positiva, budismo, história, direito, filosofia, inteligência artificial, economia e até biologia.  Até criou um título para si próprio: Presidente do seu crescimento pessoal. Mas seu verdadeiro crescimento só se iniciou quando passou a interagir com pessoas generosas que estão dando suas vidas para melhorar a educação no Brasil. Por que elas estão fazendo isso? Porque decidiram querer de coração. E isto é poder. Educar a mente sem educar o coração não é educação é uma frase de Aristóteles, mas poderia resumir o meio que este meu amigo encontrou para se perder e se encontrar novamente.

O melhor modo de encontrar a si mesmo é se perder servindo aos outros é a frase de Gandhi que explica a plenitude atual do meu terceiro amigo. Ele deixou a diretoria de uma das consultorias líderes em contratação de pessoas. Mesmo tendo feito MBA em uma das principais universidades do mundo, trabalhado em grandes empresas multinacionais e grandes consultorias de recursos humanos e gestão, largou tudo para fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Na volta, criou a sua consultoria para fazer algo que realmente ajude as pessoas (e não as empresas que o, eventualmente, contratam) a preencherem os seus vazios.
Neste momento de crise, eles deixaram o real de lado e foram em busca dos seus ideais. Loucos, diriam alguns. Mas “louco é quem me diz e não é feliz” – cantariam outros.
Marcelo Nakagawa é professor do Insper e diretor de empreendedorismo da FIAP

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: