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| 30 de novembro de 2017 | 5h 00

Negócio por convicção deve aumentar

Especialistas esperam que empreendedorismo por necessidade diminua em 2018

Tulio Kruse - Especial para o Estado

Após uma queda vertiginosa nos últimos anos, a quantidade de empreendimentos que nascem após planejamento e análise de mercado pode voltar a crescer. Já a proporção de profissionais que empreendem porque não têm alternativa deve diminuir no Brasil. Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), principal estudo do empreendedorismo no mundo, no ano passado a quantidade de pessoas que abriram uma empresa ao ver uma oportunidade de negócio no País, e não por necessidade, teve um pequeno crescimento – de 56,5% para 57,4% – pela primeira vez desde 2013.

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Geralmente com planos de negócio melhor estruturados, essas empresas costumam se manter no mercado por mais tempo. O empreendedorismo de oportunidade, quando alguém abre um negócio por convicção, chegou a representar mais de 70% dos novos negócios no País, há quatro anos. Com a crise na economia, muitos profissionais que perderam o emprego resolveram abrir sua empresa para continuar trabalhando, e a taxa de empreendedorismo por necessidade chegou a 43,5%.

O professor Gilberto Sarfati, do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, quer a volta de empresas abertas de forma consciente

O professor Gilberto Sarfati, do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, quer a volta de empresas abertas de forma consciente

A expectativa de especialistas é de que a proporção melhore em 2018. Mais suscetível à conjuntura econômica, o empreendedorismo de necessidade tende a diminuir quando a oferta de emprego é maior. “O que espero para 2018 é que se volte a ter mais gente que empreenda porque quer, e não porque não tem escolha”, diz o professor Gilberto Sarfati, do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Não dá para chegar a 72% de novo (em 2018), seria muito, mas qualquer resultado que seja superior ao patamar em que a gente está vai indicar uma reversão de tendência.”

Entre trabalhos de design como freelancer e tentativas de fazer o próprio negócio deslanchar, o publicitário Vitor Filipe, de 25 anos, viu o empreendedorismo como alternativa de renda. Em 2015, ele e o sócio Daniel Dahia, de 22, lançaram um aplicativo que mostrava promoções se o usuário estivesse perto de lojas. O objetivo era fechar parcerias com shoppings: os lojistas preencheriam um formulário virtual informando as ofertas, e o consumidor receberia notificações no celular. Como poucos lojistas criaram o hábito de usar a plataforma, o negócio não foi para frente.

“Meu sócio e eu sempre tivemos essa coisa de empreender, não temos uma segunda opção”, conta Filipe. Hoje, a parceria tem uma nova proposta: um aplicativo para cartões de apresentação virtuais, em que o usuário pode criar e salvar layouts personalizados, ligar para o número de contato com um clique e achar o endereço por meio do sistema de mapas do telefone.

Com muitos clientes entre dentistas e outros profissionais de saúde, o negócio está prosperando. A empresa passou a crescer 15% ao mês e já tem planos de contratar dez funcionários. “Tivemos essa perseverança de entender que alguma coisa tinha de acontecer e não precisaria ser necessariamente o que a gente estava idealizando”, diz Filipe.

O crescimento do número de empreendedores por oportunidade pode ser resultado não só do aumento de novas empresas com essa característica, mas também por causa do fechamento de empresas que foram abertas por pura necessidade. “A tendência é que se veja uma mortalidade maior de empresas, o que pode parecer um pouco contraditório”, diz a coordenadora do Centro de Empreendedorismo da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Alessandra Andrade. “Mas isso ocorre porque esses empreendedores por necessidade, quando veem uma oportunidade de serem contratados, abandonam a própria empresa”, completa.

Fuja da onda dos modismos

O verão de 2015 ficou marcado pela multiplicação das paleterias mexicanas, com picolés recheados que se tornaram a febre da estação. Veio o inverno e uma seleção natural fez com que poucas marcas se mantivessem no mercado. Pouco depois houve a ascensão e queda dos food trucks paulistanos e, atualmente, há quem diga que vivemos fenômeno parecido com as chamadas barbearias gourmet, que oferecem de cerveja artesanal a mesa de bilhar para seus clientes.

A derrocada das paleterias e a própria crise econômica podem ter servido como aula de administração para alguns pequenos empresários, segundo especialistas. “O que há de bom para 2018 é que temos empreendedores muito mais calejados nesse sentido”, diz o conselheiro do Centro de Empreendedorismo do Insper, Rafael Coelho. “Crise nunca é boa, mas, se podemos olhar a crise de um jeito bom, é que ela separa o empreendedor que realmente sabe empreender do cara que estava querendo só surfar uma boa onda.”

Já para o coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero, em 2018 o pequeno empreendedor deve ficar atento a mercados como o dos petshops, bufês infantis e pizzarias delivery. “Há um excesso de oferta”, diz Balistiero. “Não precisava ser PhD em Economia para saber que o setor de paleterias iria desaparecer ou impor a muita gente um prejuízo gigantesco.”

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