ESTADÃO PME » » notícias

Encontro PME| 16 de dezembro de 2015 | 7h 02

'Não sou eterna. Eu estava presidente', diz Sônia Hess

Sônia Hess deixa o comando da Dudalina, ainda assim, fala com propriedade sobre as estratégias do mercado

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

“Tenho muita vontade de ajudar outras pessoas, mas zero vontade de montar um outro negócio”, brinca Sônia Hess, empresária que esteve na presidência da grife Dudalina por 12 anos. No início de 2015, Sônia deixou oficialmente o comando do negócio após a fusão entre a marca, que já havia sido vendida em 2013, e o grupo Restoque, dono das marcas Les Lis Blanc, Bo.Bô., John John e Rosa Chá.

'O líder que se acha melhor do que o outro não é líder', diz Sonia Hess
'O líder que se acha melhor do que o outro não é líder', diz Sonia Hess
Helvio Romero/Estadão

::: Saiba tudo sobre :::
Mercado de franquias
O futuro das startups
Grandes empresários
Minha história

Hoje, Sônia aplica a experiência adquirida em projetos pessoais. É presidente da organização Mulheres do Brasil e conselheira e mentora da Endeavor. Com o Instituto Adelina, fundado em homenagem à mãe, Adelina Hess, ela fomenta a qualificação profissional de costureiras de baixa renda.

Nascida em Luiz Alves, no interior do Paraná, a empreendedora contou sobre a saga de administrar uma empresa familiar com mais 15 irmãos durante o Encontro PME com pequenos empresários e interessados no tema. Leia a seguir os principais momentos do evento.

História
A Dudalina nasceu por engano. Os pais de Sônia, Rodolfo e Adelina, eram donos de um armazém de secos e molhados em Luiz Alves. As compras para abastecimento da mercearia eram responsabilidade de Dona Adelina, porém, durante uma gravidez, ela não conseguiu viajar a São Paulo para comprar tecidos. ‘Seu’ Duda, como era conhecido seu marido, viajou em seu lugar e voltou com um carregamento de tecidos tão grande que a saída foi confeccionar camisas para vender. A empresa cresceu e, logo, os 16 filhos do casal se envolveram de alguma forma. “Quando se tem um grupo tão grande, chega um momento em que a empresa tem que tomar um outro caminho. Dar liquidez aos acionistas e ser perenizada. Então, vendemos no final de 2013”, conta Sônia.

Presidência
Sônia esteve na liderança da Dudalina durante 12 anos e garante que a proximidade com os colaboradores manteve a execução do bom trabalho. “Ser presidente dá um certo sentimento de perenidade. Mas eu não sou eterna em nada. Eu estava presidente”, reflete a empreendedora. “Talvez uma das marcas da minha gestão seja cuidar das pessoas. Todos na empresa devem ser melhor do que eu naquilo que fazem. Desde a minha secretária até um diretor. O dia em que o líder se achar melhor do que o outro, na minha opinião, ele não é líder.”

Preço e valor
Por mais que seja sucesso absoluto, a Dudalina atende a um público específico. Por isso, o valor das camisas, na concepção de Sônia, vai além do preço. “Produtos bons têm o seu valor. A Dudalina é um luxo acessível e, como todas as outras marcas, se não se reinventar, vai morrer”, discorre Sônia. Para a empresária, manter-se fiel à essência do produto fideliza o público. “É preciso ter muito respeito à marca”, crava.

Pirataria
Para o cliente mais atento, basta olhar para os lados para perceber que as camisas da Dudalina estão por toda parte. A flor de lis que simboliza a marca, porém, pode não ter garantia da fábrica de Blumenau, sede da grife. A Dudalina é alvo constante de pirataria e as cópias de baixa qualidade são alvo de uma equipe especializada no assunto. “Já derrubamos mais de 100 mil links que vendiam produtos piratas da Dudalina. Temos três pessoas 24 horas por dia rodando a internet”, conta Sônia. “As pessoas sabem que estão comprando uma porcaria, um produto pirata, e investem no crime. Aqui em São Paulo já fechamos duas fábricas que faziam produtos piratas da Dudalina. É uma luta diária. Tenho que aprender a me defender de uma forma legal e correta”, define.

Sônia garante, entretanto, que a luta contra os produtos falsificados não implica em concorrer diretamente com eles, tampouco diminuir o preço da produção original. “Se eu quiser concorrer com um pirata, ninguém mais vai querer comprar Dudalina pois vou ter que vender com qualidade muito inferior. É preciso escolher o seu nicho, não adianta concorrer com a pirataria. É preciso combatê-la”, analisou a empreendedora durante o Encontro PME.

Consumidor
A marca liderada por Sônia Hess sentiu os efeitos da ascensão da classe média brasileira, no início dos anos 2000, época em que o empreendimento viu os números do varejo crescerem em ritmo acelerado. Hoje, porém, a empresária não teme que a recessão econômica atinja o nível de venda dos produtos da marca Dudalina.

“O ‘paladar’ não retrocede. Existe uma evidente retração e toda a economia está sentindo isso. E o que podemos fazer? Trazer novos produtos, trazer novos desejos”, reflete Sônia. Alterar o preço para atrair mais consumidores não está entre os planos estratégicos da companhia para os próximos anos. “Não adianta puxar o preço para baixo. Com consumo, tudo que você puxa para baixo, você não cria mais desejo. Não é esse o caminho. O caminho é se reinventar o tempo todo. Quando você não coloca o ‘não’ na frente, é possível se reinventar.”

Revolução digital
Apesar da confiança de que os índices de venda se mantenham firmes mesmo diante da forte retração econômica, Sônia Hess confessa que pelo menos uma mudança deve ser feita na Dudalina em um futuro próximo: o fortalecimento do e-commerce da marca em busca da abrangência de público.

“Não vendemos (pelo comércio eletrônico) por opção, para respeitar as multimarcas onde estamos pelo Brasil”, afirmou a empreendedora durante o Encontro PME. “Eu não compraria uma roupa pela internet, mas eu tenho 60 anos. O jovem compra. São mundos diferentes e a gente tem que olhar para os que vêm. Para os meus netos, tudo é touch”, diverte-se.

Interessada nas mudanças que a internet conduz até mesmo nos padrões de consumo da população, Sônia Hess aposta nos adeptos da web para tornar a marca Dudalina perene no imaginário do consumidor. “O meio digital é muito mais acessível. Hoje, as pessoas fazem tudo pela internet. O mundo vai ter mudanças profundas nos próximos cinco ou dez anos. Eu não vou viver presencialmente, provavelmente vou acompanhar através dos meus netos. Digo que até os meus 40 anos eu vivi uma vida, e dos 40 aos 60 foram várias vidas”, reflete a empreendedora.

Estadão PME - Links patrocinados

Anuncie aqui